segunda-feira, 24 de julho de 2017

9000 quilómetros de distância cultural.


Zhao Xiaoyong reproduz o Auto-retrato com chapéu de palha (1888) de Van Gogh.
Fotografia de Yu Haibo.

Imagine que calcorreia uma grande cidade europeia. Na vitrina de uma loja de souvenirs, vê telas sobre telas de reproduções das obras mais importantes de Da Vinci, Monet e Van Gogh. Às dezenas e com os mais variados tamanhos, entre os pequenos 10x15 cm e os colossais 250x375 cm. Decide entrar para ver melhor. Todos os trabalhos são Made in China. Os preços: sobretudo 35, 55 e 80 euros. Mas encontra também cópias, as maiores, por 125, 500 e até 750 euros. O vendedor – de origem chinesa – vê-o ali, presume-o interessado mas hesitante, e dispara: “olhe que são melhores do que os originais!” Não disfarçando o riso, agradece-lhe e sai da loja.

Divertido, pensa consigo mesmo: Ele acha que dizer tal coisa o ajuda a vender? Na verdade, é bem provável que sim. E que acredite no que disse. Mais: há boas hipóteses de, para ele, aquelas cópias serem tão autênticas como os originais envidraçados em Paris, Nova Iorque, Florença ou Amesterdão. Como pode ser?

After the copy : creativity, originality and the labor of appropriation: Dafen Village, Shenzhen, China (1989-2010) é o título de uma tese de doutoramento sobre o fascinante mercado chinês da cópia de obras de arte. A autora, a historiadora de arte Winnie Won Yin Wong, põe o foco na pequena cidade de Dafen, nos subúrbios dos subúrbios da gigante Shenzhen, habitada por 11,9 milhões de pessoas. Dafen é o caso interessantíssimo de um mero dormitório que, em poucos anos, virou epicentro de um mercado em explosão. Crê-se que 60 por cento das reproduções mundiais de obras de arte são hoje pinceladas em Dafen.


Escultura à entrada de Dafen

Segundo Winnie Wong, a história começa em 1991, com um negociante de arte da rica Hong Kong. Huang Jiang decide assentar na barata Dafen com 20 pintores recém-formados na região. Promete-lhes rendimento estável. Em troca, eles dedicam longas horas dos seus dias a copiar a Mona Lisa, a Mulher com brinco de pérola, a Noite estrelada e outros clássicos da pintura europeia. Em poucos anos, a procura destes trabalhos por chineses e estrangeiros é tal que Dafen torna-se notícia.

Com um empurrãozão da classe política, a cidade até há pouco insignificante reinventa-se com a designação comercial Dafen Oil Painting Village. Em 2004, milhares de pessoas concorrem na primeira Dafen Copying Competition, um fascinante concurso público que todos os anos desde então eleva aos píncaros um mestre na rapidez e na técnica de copiar obras de arte. Ali perto, onde nada existia, ergue-se hoje o Dafen Art Museum, onde estão expostos trabalhos originais dos artistas da terra. Os mesmos que, no horário de expediente, se ocupam a reproduzir anjos desnudos, girassóis, A Última Ceia, O Nascimento da Vénus e o mais que chineses e europeus quiserem pendurar nas salas.

20 anos depois de Huang Jiang ter desencadeado o big bang, a cidade tem hoje mais de 10 mil pintores-reprodutores, centenas de oficinas de arte e pelo menos 1200 galerias. Dafen significa “boa fragrância”, mas fede a tintas e a diluente.

A que se deve tamanha aposta política numa indústria que consiste na cópia barata? E que ética subjaz à mercantilização do que tem tão pouco ou nenhum valor intrínseco? O nosso vendedor sino-europeu achará as perguntas absurdas. Para ele, como para os trabalhadores de Dafen, a reprodução de high art é em si mesma uma arte, não menos autêntica do que as obras que lhe dão a razão de ser.

Winnie Wong – que veio a aprofundar o tema no livro Van Gogh on demand: China and the readymade (2013) – encontra dois motivos principais para esta concepção, digamos, lata do que significa a criação artística. Um deles é o efeito psicológico de Dafen sobre os seus obreiros: não é de estranhar que estes copistas, pelo contacto íntimo e diário com os métodos dos maiores pintores de sempre, se sintam também artistas de direito próprio. A isso não será alheio o contraste entre o seu passado rural e a formação intensiva (ainda que extremamente curta e superficial) em técnicas de pintura que necessariamente tiveram antes de entrarem no universo Dafen.

O outro motivo encontrado por Winnie Wong, talvez o mais interessante, é haver quatro termos em mandarim que correspondem ao ocidental verbo copiar: «lin» (imitar), «mo» (pintar à maneira de), «fang» (apropriar-se de) e «zao» (inventar). De um ponto de vista cultural, cópia em chinês tem um significado plástico que, em certas circunstâncias, põe num mesmo patamar a criação e a recriação artísticas. Aquele que reproduz obras de arte para fins comerciais pode ser, nesta concepção, alguém que bebe do original para criar algo novo, profundamente seu.


Parque de diversões Window of the World, em Shenzhen. É composto por 130 reproduções de referências arquitectónicas e culturais do Ocidente, como a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, a Torre de Pisa, o Cristo Redentor ou o Memorial do Monte Rushmore.

A polissemia do termo cópia ajuda a compreender que as autoridades chinesas considerem a recriação artística uma indústria criativa, com todos os efeitos que daí advêm em subsidiação e promoção (acima descritos). Junte-se-lhe a imensa procura mundial de reproduções baratas de arte e perceber-se-á melhor o boom económico da pequena cidade. Em 2015, as apertadas e insalubres oficinas artísticas de Dafen atingiram, no conjunto, um volume de negócios de 60 milhões de euros. É obra. E é menos, bem menos, do que o conseguido nos áureos finais da década de 2000, em que toda a gente que era ou queria ser alguém na China encomendava para casa um ou outro Van Gogh, um ou outro Botticelli. Ou mesmo reproduções de Dalí e Warhol, protegidas por copyright mas nem por isso menos desejadas e copiadas.

60 milhões de euros é obra sobretudo se considerarmos os 10 mil antigos trabalhadores rurais e fabris que saíram da miséria e ali encontraram rendimento mais ou menos estável. Ou o facto de que grande parte das cópias Made in China é exportada a preços irrisórios para revendedores na Europa que, esses sim, lhes acrescentam valor. Em euros, queremos dizer.



Fotografias da Reuters em oficinas-habitação de Dafen.
Os pintores-reprodutores de Dafen têm um rendimento médio mensal que ronda os 250 euros. Considere-se que mais de metade desse valor é exigido para arrendar um qualquer cubículo na cidade, onde caberá pouco mais do que uma minúscula kitchenet e uma cama. Daí resulta que muitos durmam juntos nas próprias oficinas onde trabalham.

Uma das passagens mais pungentes de China’s Van Goghs (2016), um documentário exibido há dias pela RTP2, mostra 8 homens a acomodarem-se em finíssimos colchões desdobráveis no chão do pequeno estúdio onde trabalham. No dia seguinte, todos de pé, as telas na vertical contra a parede, dão vazão à encomenda mensal de mais umas quantas centenas de Van Goghs. O costume. As pinturas, enroladas às dezenas em estreitos tubos, viajarão para as mãos de um revendedor em Amesterdão, que as porá em quiosques e lojas de souvenirs da cidade. O revendedor é holandês. Os lojistas são imigrantes chineses. Claro.

Trabalhadores da oficina de Zhao Xiaoyong dormem. Fotografia de Yu Haibo.

Com realização de Yu Haibo e Kiki Tianqi Yu, China’s Van Goghs mostra-nos a oficina de Zhao Xiaoyong, um quarentão originário de uma aldeia próxima de Dafen. Zhao já antes havia sido figura central no trabalho de Yu Haibo: em 2005, o também fotógrafo passou um mês em Dafen, onde fotografou trabalhadores de várias oficinas: uns a recriarem renascentistas italianos, outros especializados nos impressionistas, outros ainda em surrealistas. E fotografou Zhao, homem simpático e com uma paixão a raiar a obsessão pelo objecto do seu trabalho, o frenético e problemático Van Gogh. Yu Haibo recebeu um prémio World Press Photo pelas suas fotografias.
Zhao Xiaoyong prepara-se para pendurar mais um Auto-retrato (Van Gogh, 1889).
Fotografia de Yu Haibo.

Na fotografia mais icónica da série, Zhao segura com as duas mãos um Auto-retrato vangóguico (permitam-me a liberdade) acabado de terminar. A sua expressão têm um quê de angelical, como que dando sinal da profunda reverência que sente para com Van Gogh. Em volta, nas paredes e no chão do pequeno cubículo, seca mais de uma dezena de outras cópias – Auto-retratos e Noites estreladas, sobretudo. Provavelmente as que têm mais saída. Ao fundo, a mulher de Zhao observa a cena com o ar espantado de quem não compreende tamanho aparato. Talvez para ela nada daquilo passe de papel pintado e de um negócio como outro qualquer. A imagem tem um equilíbrio que prende a atenção. Não admira que tenha sido escolhida por Winnie Wong para o seu livro de 2013, onde Zhao é também figura proeminente.


Depois de anos de trabalho operário e de uma precariedade que o levou a dormir durante mais de um mês num campo de cultivo, ao relento, Zhao especializou-se na cópia das principais obras de Van Gogh e montou o seu pequeno negócio em Dafen. Em poucos anos, o crescente volume de encomendas fê-lo poder convidar irmãos, primos e tios. Deu-lhes formação, guarida e os ordenados extremamente baixos que as curtas margens lhe permitem. Acima de tudo, deu-lhes muito trabalho: até hoje, mais de 100 mil cópias. 100 mil. No documentário, Zhao lembra uma encomenda de 700 Van Goghs num único mês – quase 90 quadros para cada um dos trabalhadores da oficina, ou três por dia, trabalhando fins-de-semana completos. Zhao aceitou, a encomenda foi cumprida. Noutro momento, uma encomenda para vários meses: 5000. 5000 Van Goghs!

Zhao tem o azar de os seus Van Gogh valerem menos do que as cópias de praticamente qualquer outro artista. Os Van Gogh têm menor cotação porque o impasto inventado pelo holandês, baseado em tinta não diluída, traços grosseiros e geometricamente nada rígidos, é considerado a técnica mais fácil de copiar. Consta que a maior parte dos trabalhadores rurais que migraram para Dafen começou a sua formação, precisamente, a imitar Van Gogh. Os passos seguintes, diz Winnie Wong na sua tese, são o impressionismo e, quando o pintor é verdadeiramente bom, o desenho de paisagens ou de retratos. O mais realistas possível.

Não deixa de ter graça que o estilo livre, introspectivo e abstracto dos pintores modernos, focado nas suas percepções e não já na transposição hiper-realista para a tela, seja considerado menor no mercado da cópia alimentado pelas classes burguesas e esclarecidas do mundo. Um mundo onde foi inventada a fotografia.

Winnie Wong relata outra causa para o valor comparativamente baixo dos Van Gogh no mercado chinês: em 1987, a Natureza morta com quinze girassóis (1889) de Van Gogh foi adquirida por Yasuo Goto, um empresário japonês, por cerca de 40 milhões de euros. Foi, à data, o valor mais alto alguma vez pago por uma obra de arte. Três anos depois, Ryoei Saito arrematou o Retrato de Dr. Gachet (1890) por assombrosos 80 milhões de euros – quase um Cristiano Ronaldo. Estas compras foram notícia e, na China, tiveram o efeito de aumentar imensamente a procura por cópias de Van Gogh. À medida que mais e mais trabalhadores não qualificados se dedicavam à satisfação da procura, o preço das reproduções caía a pique. Em 1996, disse Zhao em entrevista a Winnie Wong, uma recrição em 20x24 cm dos girassóis de Van Gogh podia render-lhe 25 euros. Em 2009, a data da entrevista, já não lhe ofereciam mais de 6 euros. E, como referimos acima, 2009 foi um ano bom quando comparado com 2015. Entretanto, o custo de vida na China – e na procurada Dafen – aumentou.



As etapas da pintura por Zhao de uma Natureza morta com quinze girassóis (1889).
Fotografia de Winnie Wong.

Não se pense que Zhao se ficou pelos Van Gogh à falta de capacidade para melhor, como os preços de mercado podem fazer crer. Não é isso, pelo menos, o que transparece das suas palavras, trazidas a nós por Winnie Wong (na tese), Yu Haibo e Kiki Tianqi Yu (no documentário). Logo no início do documentário, Zhao recorda a noite em que sonhou que Van Gogh lhe perguntava “o que pensas das minhas obras?” Zhao respondeu-lhe: “Sinto que estou quase a entrar no teu mundo”. A sua obsessão com a vida e a obra de Van Gogh é clara desde o início do filme. Nota-se na tentativa de expressar as putativas emoções e pensamentos do holandês, sobretudo na fase francesa da sua vida (a última, da qual a maior parte das obras copiadas provém). E nota-se na euforia e esperança com que declara à mulher que vai gastar as poucas poupanças do casal para se encontrar com o principal comprador das cópias, o holandês de Amesterdão, e sobretudo cumprir o sonho antigo de visitar o Museu Van Gogh. Aí poderá, finalmente, ver os originais que só conhece de digitalizações.

Mas a obsessão de Zhao nota-se sobretudo na ideia que tem de si próprio: a de um artista atormentado. Vive consumido pelo desejo de criar obras de arte únicas, que tenham o reconhecimento dos seus pares e do mundo. Que paguem mais do que um mísero dígito em euros (como se o próprio Van Gogh não tivesse penado para simplesmente subsistir, não encontrando comprador sequer para o pouco que exigia por muitos dos seus originais). O curioso é que Zhao não tem interesse em pintar algo seu de raiz, com estilo e conteúdo próprios; para ele, ser-se artista plástico não é incompatível com querer-se fazer a cópia perfeita de um Van Gogh. Sendo que, mais uma vez, cópia não tem para ele o significado restrito de reprodução exacta a que estamos habituados, nós, ocidentais.

Por várias vezes, no documentário como na tese, Zhao deixa claro que, tantos milhares e milhares de obras reproduzidas depois, já não precisa de ver o original antes de o recriar. Evidencia, até, um auto-academismo e um desprendimento que o põem, pelo menos nesse sentido, num patamar próximo ao do pintor que admira: a pintura, neste caso a cópia, tem de vir o mais possível da evocação mental do original e não da visualização permanente da sua reprodução digital.




Um forte incentivo a esta sua concepção advém do próprio mercado onde ele se insere: numa curta visita à oficina de Zhao, relatada por Winnie Wong, o comprador holandês enfatiza que lhe interessam pouco as cópias fiéis, perfeitas. Ele quer recriações com “boa qualidade”, apenas isso. E não fica nem levemente incomodado ao ver dezenas de reproduções da Natureza morta com quinze girassóis (1889), como a pintada por Zhao nas imagens acima, com caules rectos bem diferentes dos retorcidos originais. Na verdade, diz ele, “ficam mais comercializáveis assim”. Isso ajuda a explicar que Zhao demore apenas uns 13 segundos a esboçar os girassóis na tela antes de começar a pintá-los.

Neste aspecto também, pelo menos, Zhao tem algo de Van Gogh: a sua impaciência, o seu stress permanente, fazem-no produzir uma recriação mais ou menos com a mesma rapidez com que o próprio Van Gogh os terá criado. Diz-se que, pelo menos nos 70 dias antes da sua morte, o artista holandês fez em média uma pintura por dia.

O que China’s Van Goghs mais acrescenta ao trabalho académico de Winnie Wong (para além das imagens que têm o efeito de mais imediatamente do que o texto nos fazerem entrar na realidade de Dafen) é a segunda metade do filme, em que Zhao viaja para Amesterdão e, depois, para a modesta Arles, em França. Depois de o vermos debater-se com os seus dilemas artísticos e financeiros, vê-lo nos céus, impaciente como uma criança por se “encontrar” com Van Gogh, é uma injecção para a nossa empatia por ele.



Chegado a Amesterdão, Zhao fica rapidamente desconsolado com a cidade, que imaginava repleta de arranha-céus como os de Shenzhen, ou mesmo os de Dafen. Na sua deambulação pela capital holandesa, Zhao encontra uma tela gigante das suas em grande destaque num quiosque de praça. Orgulhoso de os seus trabalhos serem vistos pelas multidões europeias, anuncia-se ao lojista e fica espantado quando este lhe diz que a pintura mais pequena de todas, uma que Zhao exporta por míseros 8 yuan (exactamente 1,01 euros), está ali à venda por 35 euros. Zhao fica também a saber que a tela grande, das maiores que produz, vende-se ali por incríveis 500 euros. Ficamos sem saber que margem recebe, mas arriscamos um cálculo: se 500 / 35 (ou seja, se o valor de revenda for como no outro caso 35 vezes superior ao da venda), então para Zhao cabem uns módicos 14,3 euros. Para atingir os 250 euros de salário médio em Dafen, terá de produzir quase uma destas mega-telas por dia.

Um dos momentos mais fortes do filme são os longos segundos em que, depois de se aperceber desta realidade, vemos Zhao sorver sofregamente o seu cigarro.

(A título de curiosidade, procurei trabalhos de Zhao à venda online e descobri uma sua Natureza morta com quinze girassóis (1889), com uns medianos 73x92 cm, à venda num site alemão por incríveis 1500 euros. Espero que Zhao já tenha entretanto descoberto uma forma de vender online, mais caro e sem intermediários.)

Mais atordoado ainda do que já vivia, Zhao prossegue a caminhada para o Museu Van Gogh, onde o vemos quase encostar o nariz ao Auto-retrato com chapéu de palha (1888). Conseguimos imaginar as sinapses no cérebro do nosso querido chinês, à medida que se apercebe das tonalidades e dos traços tão significativamente diferentes dos que Zhao conhece da internet.



O passo seguinte da viagem de Zhao é uma breve passagem por Arles, onde Van Gogh viveu os últimos anos, e da qual foi mesmo levado para internamento psiquiátrico durante um ano. Zhao encontra a sepultura do pintor e singelamente acende três cigarros que, com a cabeça para o topo, fumegam como velas fúnebres. À noite, o êxtase: Zhao vê finalmente o céu azul, azulão!, das noites estreladas que tanto mexem com a sua vida. E não só a sua.

O Zhao que regressa a Dafen vive mais do que nunca atormentado pela dúvida e pela pouca auto-estima. Mas familiares e colegas de trabalho garantem-lhe: nenhum trabalho é menos legítimo do que outro. Se reproduzes Van Gogh com paixão, se é isso o que mais do que tudo gostas de fazer, então o teu trabalho é bom e tão meritório como qualquer outro. O novo Zhao, talvez reconfortado, parte brevemente para a aldeia onde ainda vive, sozinha, a avó. Ali, com a tela no cavalete, vemo-lo retratar a anciã e logo depois as ruas do lugar, empedradas toscamente como os poucos casebres. Com pinceladas fundas, rápidas e desalinhadas. Tais como as do seu mestre.
Rui Passos Rocha
 
 
 
 
 

Na Biblioteca Nacional...

 
 



sexta-feira, 21 de julho de 2017

Cheias de 1967: 50 anos.

 



 
 


«Agir»
 
As cheias de 1967 e o progressismo católico português
 
 
 
No «progressismo católico» português detecta-se a convergência de dois sentimentos: consciência moral e superioridade intelectual (1).
Já na «Carta de um grupo de católicos de Portugal distribuída aos padres conciliares», de 1965, se falava da «vida terrivelmente sub-humana dos trabalhadores portugueses» (2). É sintomático, de resto, que num inquérito promovido em 1964 pelas direcções-gerais da Juventude Universitária Católica, uns esmagadores 76,8% dos inquiridos hajam respondido que «o universitário deve tomar consciência das questões económico-sociais e políticas do seu tempo, esforçando-se por encontrar as soluções mais válidas»; apenas 6,2% entendiam que os universitários se deveriam preocupar somente com os estudos (3). Havia, no entanto, uma clara diferenciação entre o «político» e o «social»: apenas 25,9% dos inquiridos aceitavam discutir sempre problemas políticos, mas 57,9% admitiam fazê-lo quanto a problemas sociais (4). Sedas Nunes falava da emergência de uma «geração social» integrada por ex-associados ou ex-dirigentes da JUC, que, nas suas palavras, «tinham entrado para a universidade sem grandes preocupações políticas (…). Tinham, porém, saído da universidade cheios de preocupações sociais» (5). 
Com o tempo, porém, o «social» e o «político» começam a confundir-se (6), até porque a ideia de «política» então dominante era muito mais abrangente do que a que existe nas democracias consolidadas dos nossos dias. Na altura, «a política fazia parte da vida», sustenta Manuel Villaverde Cabral (7). O «social» uma indiscutível importância política. Nas eleições de 1969, um dos pontos salientados pelo candidato da «ala liberal» José Pedro Pinto Leite era, além da definição de um salário mínimo nacional e da revisão do sistema do abono de família, a «resolução dos graves problemas da habitação e dos problemas dos transportes urbanos e suburbanos da cidade de Lisboa, promovendo uma política de embaratecimento de terrenos e tentando convencer as autoridades competentes a promover soluções adequadas ao nosso tempo» (8). Um governante de Marcello diz que foi em larga medida devido ao exemplo de Pinto Leite e à convicção de progresso e de democratização («acreditei que íamos caminhar para um regime democrático») que aceitou integrar o Executivo de Caetano (9). Não por acaso, os técnicos de apoio social têm um papel muito relevante na oposição ao regime, podendo citar-se os nomes de Maria Eugénia Varela Gomes ou de Gabriela Ferreira, sendo esta, juntamente com Ludovina Esteves e Teresa Abrantes, das assistentes sociais exoneradas da Função Pública por terem participado na vigília da Capela do Rato (10). As alunas do Instituto de Serviço Social, não por acaso, foram auxiliar as vítimas das cheias, nomeadamente no Bairro J. Pimenta, na Amadora, refere Zulmira Marinho Antunes, filha de uma personalidade que terá papel de revelo no rescaldo do caso do Rato: João Pedro Miller Guerra (11).
Se acompanharmos o percurso biográfico de Maria da Conceição Moita, narrado pela própria, apercebemo-nos claramente do modo como se efectuou esta transição do «social» para o «político»:
 
«Fui professora de Religião e Moral durante muitos anos. Procurava fazer um discurso para os jovens, não subversivo mas entusiasmante, alegre, positivo, de empenhamento. Para mim, foi uma coisa muito interpeladora. Depois, convivi muito de perto com os professores de moral de Lisboa, porque trabalhei no secretariado diocesano que fazia a colocação desses professores, como o Pe. Alberto, o Pe. Armindo, o Pe. Janela. Pela comunidade da Martens Ferrão passaram muitos jovens, era um lugar de alegria, de sonho, de utopia, de acreditar que era possível mudar.
Quando estava a trabalhar no secretariado da Martens Ferrão fiz um curso de alfabetização baseado no método de Paulo Freire. Era um curso organizado pelo Graal, pela Manuela Silva, pelo Lindley Cintra, que nos preparou para usarmos esse método. No fim do curso, pediram ao Graal que indicasse uma mulher para leccionar junto de ex-prostitutas. Pensei: “Porque não?”. Aí comecei a fazer alfabetização, ao fim de tarde, a raparigas que se entregavam à prostituição e queriam sair. Foi uma experiência muito forte para mim. A grande experiência de contacto com o sofrimento no seu estado mais puro, uma coisa sem explicação, absolutamente sem explicação. Ouvi histórias de vida que ainda hoje me deixam dilacerada.
No ano seguinte, fui convidada para trabalhar e integrar os quadros do “Ninho”, o que fiz sem hesitações, pois já estava completamente apaixonada por aquela realidade. Aí contactei um dos lados da miséria do país. Havia outros: os bairros de lata, a emigração. Mas eu contactei a miséria urbana. Foi uma experiência muito importante no meu percurso pessoal, que me perturbou muitíssimo no modo de ver e entender as coisas. Até politicamente foi muito importante – nasceu em mim a revolta perante o país que se tinha. Em mim, aquilo revoltava-me: porque é que havia tantas histórias de encobrimento, de conivência de polícias, das autoridades, com o mundo da prostituição? Não por acaso, redigi um documento chamado “O Ninho pretende ser um movimento de libertação”, que não seria aprovado pelo Patriarca D. António Ribeiro.   
Por outro lado, o meu irmão Manuel esteve na guerra. Esteve na Guiné, foi condecorado, mas entregou a condecoração à minha mãe e nunca mais falou daquilo por que passou, entrando de cabeça na política. Além disso, circulava muita informação sobre a guerra colonial.
Assim, chego à política, sem dúvida nenhuma, muito mais por uma via empírica do que por uma via intelectual. Lia as encíclicas, mas não lia O Capital. Agora, as encíclicas tiveram imensíssima importância para mim. Havia imensa informação vinda do exterior, mas pessoalmente não tinha muita, baseava-me mais na minha experiência de vida» (12).



A intervenção social torna-se, em larga medida, uma intervenção política, tendo-se abandonado a ideia de uma resolução pontual de problemas circunscritos (v.g., através de acções de índole caritativa) em favor de uma abordagem global da «sociedade» como um todo. Esta transição tornava os crentes, que para mais agiam de acordo com a sua «consciência» (13) e em nome de uma «causa justa», particularmente subversivos. Não por acaso, a Censura irá cortar a transcrição feita nos jornais de uma carta que, na Páscoa de 1970, um conjunto de 200 pessoas subscreve. Entregue ao Cardeal Patriarca de Lisboa, ao Bispo da Igreja Lusitana Evangélica Católica Apostólica e ao Pastor da Igreja Presbiteriana de Lisboa, a missiva exemplificava bem a nova abordagem global dos problemas da sociedade, que entrecruzava questões sociais (ex. igualdade no acesso à saúde ou à educação) e questões políticas (ex. fim da guerra colonial, incremento da participação cívica) (14).
Aos poucos, forma-se uma consciência social que se mostra cada vez mais avessa a confiar nas possibilidades de reforma da «desordem estabelecida», para usar a conhecida expressão de Mounier, ou a «desordem dos factos», na terminologia de Paulo VI (15). Como exemplo dessa consciência social, lembre-se que partiu de um grupo de católicos do Instituto Superior Técnico a campanha de solidariedade e de apoio, realizada nos bairros degradados dos arredores de Lisboa, às vítimas das cheias de Novembro de 1967, que afectaram em especial o Vale da Ribeira de Odivelas - Bairro de Santa Cruz da Urmeira, Quinta do Silvado e Pombais (a maior parte das habitações ficaram destruídas) e as áreas baixas da Póvoa de Santo Adrião e Quinta da Várzea, ocorrendo muitas mortes e desaparecimentos (16). Para ter uma noção da dimensão do temporal, basta referir que, ao longo de cinco horas de «chuvas rápidas», a precipitação verificada, de 111 milímetros por metro quadrado (mais precisamente, 112,5 milímetros, registada na estação meteorológica da Tapada da Ajuda), correspondeu a cerca de 25% da precipitação média anual. A chuva caiu com maior intensidade entre as 19h e a meia-noite do dia 25 de Novembro. Em Lisboa, por força das águas vindas de Monsanto, a Avenida de Ceuta esteve completamente submersa e o mar de lama desceu até à Avenida da Índia. Na Praça de Espanha e na Avenida da Liberdade só se passava de barco. Dentro da sala do antigo Cinema Éden, no Largo de Alcântara, uma onda de água galgou a plateia e os 150 espectadores só escaparam refugiando-se no balcão, sendo resgatados pelos bombeiros cerca da meia-noite. Na Estação de Santa Apolónia, centenas de pessoas ficaram retidas nas carruagens dos comboios, porque a água submergiu a linha férrea. Foi a maior catástrofe natural que atingiu Lisboa desde o terramoto de 1755. Noutros pontos da Grande Lisboa, a enxurrada matou famílias inteiras, arrastou carros, árvores e animais, destruiu pontes, estradas, casas. O fenómeno abalou o país e comoveu a Europa: chegaram donativos dos governos britânico e italiano, do principado do Mónaco e o general De Gaulle chegou a contribuir com uma «dádiva pessoal» de 30.000 francos. O apoio em meios sanitários veio de França, da Suíça e, sobretudo, de Espanha, que ofereceu mil doses de vacina contra a febre tifóide. O Diário de Notícias lançou uma subscrição que, em conjunto com a da Cruz Vermelha, atingirá os 25 mil contos de receita. A Fundação Gulbenkian aprova a constituição de um fundo para a construção de habitações para os desalojados. É a partir destas iniciativas que nascem o Bairro Gulbenkian, em Odivelas, e o Bairro da Cruz Vermelha, no Lumiar, em Lisboa.



 


A Junta Central da Acção Católica, em 29 de Novembro de 1967, emite um longo comunicado sobre «a grave situação criada pelo temporal na região de Lisboa», no qual procede a um exame de consciência que termina com uma série de interrogações (17). «Actos», assim terminava um artigo de Vida e Alegria, da JOCF, em que se procedia a um balanço das cheias. «Que poderás fazer como construtora dum mundo em que a Justiça não seja apenas uma palavra, mas ACTOS?», perguntava-se (18).
As cheias de 25 para 26 de Novembro de 1967, que fizeram cerca de 500 mortos (19), mobilizaram diversas associações de estudantes por todo o país, envolvendo a Juventude Universitária Católica, apelos do Conselho de Repúblicas de Coimbra, ou campanhas de angariação de donativos entre os organismos académicos do Porto. «As inundações foram um momento de grande mobilização. Aí quem esteve muito presente foi o Joaquim Osório, que era diácono e depois não se chegou a ordenar. Houve uma mobilização muito grande, até que a certa altura o Ministério do Interior disse-nos para pararmos. Foi uma mobilização tão grande que devemos ter ficado debaixo de olho da PIDE», refere o sacerdote António Janela (20). Outro sacerdote, que consigo vivia na mesma casa, Armindo Garcia, tem uma recordação curiosa: «nós oferecemos a nossa Casa da Martens Ferrão. Foi uma invasão, ali entrou toda a gente. Aquilo foi uma espécie de célula de coordenação, onde alguns conquistaram ali terreno, onde algumas lideranças se afirmaram. As cheias foram, de facto, uma oportunidade política de que alguns se aproveitaram. Aprendemos com elas a não ser ingénuos: vimos que havia  gente organizada que encontrou ali uma via fácil para a tomada do poder. E fiquei com a ideia de que ainda era o PCP que controlava essa gente» (21). No Porto, por sua vez, a Confronto lança uma «Campanha de Solidariedade às Vítimas das Inundações», tendo-se chegado a preparar um trabalho sobre «as inundações e o problema da habitação», em que participaram Mário Castrim, Nuno Portas, Gonçalo Ribeiro Teles e Raul Silva Pereira (22).



 


Ocorrida após a pouco conhecida «crise académica» de 1965 (23), tratou-se da primeira grande experiência colectiva de contacto entre os universitários e o povo, a qual suscitou, compreensivelmente, algumas tensões com o Movimento Nacional Feminino (os estudantes eram «complicadíssimos» e o «ambiente não podia ser pior, de cortar à faca», na reminiscência de Cecília Supico Pinto 24, a dirigente do MNF que pouco antes chegou a ser alvo de escutas telefónicas da PIDE 25), ou com o Presidente da Câmara de Vila Franca de Xira (26). Um operário desta região dirá, num livro publicado em 1973, que «há uma parte capitalista da juventude estudantil que tem trabalhado mesmo para benefício dos outros» (27). E as cheias colocavam realmente em questão o problema dos outros e da forma como viviam - e morriam. Era um problema que, por exemplo, não se colocara no incêndio que devorara a Serra de Sintra em Setembro de 1966, durante seis dias, ceifando a vida a 25 soldados (28). Aí, na Serra, não havia ninguém a que acorrer.
Em várias circulares, o Centro de Coordenação da Acção Juvenil de Auxílio aos Sinistrados (CCAJ) vai dando conta dos seus trabalhos (29). As queixas relativas à falta de colaboração das autoridades são constantes e, talvez mais importante do que elas, havia a ideia de, após o socorro no auxílio às vítimas das cheias, prosseguir as tarefas de apoio aos mais carenciados.
A mobilização estudantil começara logo no dia 27 de Novembro, quando alunos dos liceus Camões, D. Leonor, D. João de Castro, Filipa de Lencastre, Maria Amália, Passos Manuel e do Colégio Moderno se organizam numa comissão inter-escolas e apelam à organização de «brigadas de jovens» para socorrer os que «não têm tecto nem roupa para se agasalhar». Há quem diga que as primeiras iniciativas se deveram aos alunos católicos do Instituto Superior Técnico, que contactaram as associações de estudantes, tendo estas aceite o repto que lhes era lançado (30). A partir daí, o movimento adquire uma dimensão sem precedentes, a ponto de equipas de alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra virem integrar campanhas de vacinação na região de Lisboa (31). No Instituto Superior Técnico, um serviço de apoio funciona ininterruptamente na associação de estudantes. Na Associação de Estudantes do Técnico forma-se mesmo uma Comissão Coordenadora Central, a qual será responsável pelo fornecimento de cerca de 1.000 refeições por dia às vítimas das cheias e pela organização de acções de apoio que, em termos numéricos, envolveram cerca de 5.760 estudantes, que prestaram 44.080 horas de trabalho voluntário (32). A Acção Católica, por seu lado, organizou igualmente as suas equipas de auxílio.



 


Ainda que numa dimensão muitíssimo distinta, as cheias não afectariam apenas os mais carenciados. Vivendo na altura em Loures, Conceição Monteiro era catequista e integrava as Conferências de São Vicente Paulo, onde desenvolveu trabalho junto das mulheres, agrupando-as num pequeno clube no Pinheiro de Loures, em que procurava incutir-lhes a ideia de igualdade entre sexos. Participante empenhada da Acção Católica, Conceição Monteiro sofrerá os efeitos das «cheias horrorosas» de 1967: «morreram vinte e quatro vizinhos meus e a minha casa ficou destruída» (33). Decidiu, então, mudar-se para Lisboa. Prima de Francisco Pinto Balsemão, Conceição Monteiro era amiga íntima de Pinto Leite e seguia com atenção o percurso da ala liberal.
Enquanto se recebiam donativos de toda a parte (34), no terreno os estudantes impressionaram-se não apenas pelas condições de vida das populações mas também pela passividade das autoridades – mais precisamente, das forças da Guarda Nacional Republicana presentes no local (35) – perante a tragédia. Zita Seabra, estudante no Porto, conta que, tendo-se deslocado para a zona de Odivelas, aquela foi a primeira vez que entrou num bairro de barracas (36). José Mariano Gago ainda hoje recorda as «aldeias cobertas de lama» (37), enquanto João Isidro lembra que os jovens universitários descobriram «um país dos bairros da lata, um país que tinha sido submerso pela lama»; «a Universidade tomou consciência de que havia um país que não estava ali à volta da Cidade Universitária e era um país de bairros de lata que fora submerso por lama»; «os estudantes foram para a campanha das inundações sem a mínima ideia ao que iam, iam para socorrer pessoas. E quando se deram conta da dimensão da catástrofe, quando foram confrontados com a lama, com a indiferença prática do Movimento Nacional Feminino, das forças de segurança. Os estudantes, sem formação política absolutamente nenhuma, começam a “amotinar” os desgraçados que tinham perdido a barraca ou alguém de família... é evidente que estava na forja um conjunto de revolucionários» (38). Muitos anos antes, na campanha presidencial de 1958, ao discursar em Chaves, Humberto Delgado acusara os governantes do seu país de não conhecerem os bairros da lata («se esses senhores entrassem num bairro da lata…») (39). Pelos vistos, os estudantes universitários também não os conheciam.





 
No seu relato memorialístico, o próprio Américo Thomaz, que diz ter visitado os locais mais afectados, afirma que se tratou de uma «completa calamidade», em que existiram «famílias inteiras imoladas à fúria dos elementos» (40). Em contraste, o dirigente estudantil João Bernardo confessa ter ficado impressionado com a incúria das autoridades: «além de nós, só havia os bombeiros voluntários; de resto, absolutamente mais nada» (41). Uma outra estudante, Rita Veiga, moradora em Alvalade, diria «se me pedissem para resumir, numa só palavra o que vi diria: lama, lama, e ainda lama». Na altura ainda estudante liceal, Jorge Wemans, que estará presente na vigília do Rato, deparou com «lágrimas desconfortadas, envergonhadas», «cheiros nauseabundos», «casas esventradas, móveis partidos, muros caídos, árvores derrubadas». «E, por todo o lado, lama, montanhas de lama, sempre mais lama» (42). Um habitante de Quintas, um lugar do Ribatejo particularmente atingido pelas cheias, recorda que «a água era como uma pessoa a subir, escada acima. Aquilo nem era bem água, era mais um líquido leitoso» (43). Outro, morador em Porto de Areia, diz: «levei-me a convencer que o mundo tinha acabado» (44). Os mortos amontoavam-se às dezenas e, no dia 26 de Dezembro, começam as operações de remoção dos cadáveres: «iam às casas, tiravam os corpos, punham-nos no chafariz amontoados, como se fossem sacos de batatas. E dali levavam-nos para Vila Franca», conta uma habitante de Quintas (45). Alguns tentam aproveitar-se da catástrofe, fazendo-se passar por familiares dos mortos: «muitas pessoas vinham, como se fossem famílias das vítimas, à procura de ouro». O jornalista Pedro Alvim escreveria uma tocante crónica no Diário de Lisboa, intitulada «Os Mortos e os Fósforos», que começava assim: «Era ao cair da tarde - e havia mortos. Todos muito juntos, enlameados, compridos. Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno» (46).



 


As autoridades procuraram silenciar a dimensão da catástrofe (47), ponto que os estudantes não deixariam de questionar nas publicações que editaram na altura (48). Indo até aos mais ínfimos pormenores, a Comissão de Exame Prévio do Porto determina, por exemplo, em 30 de Dezembro de 1968: «Baile de passagem de ano, no Palácio dos Valenças, em Sintra. Não dizer que a receita se destina às vítimas das inundações»; em 2 de Dezembro: «No noticiário das enxurradas não dizer que se acode às classes populares e se despreza a classe média»; em 27 de Novembro, o tenente Teixeira ordenava: «É conveniente ir atenuando a história. Urnas e coisas semelhantes não adianta nada e é chocante. É altura de acabar com isso. É altura de pôr os títulos mais pequenos» (49). Em privado, porém, a dimensão da tragédia era reconhecida, quando, por exemplo, o Ministro do Interior agradece o apoio concedido por Dom Duarte Nuno de Bragança (50). E, como salienta o historiador Miguel Cardina, «o Solidariedade Estudantil apresentava estatísticas baseadas em dados do Serviço Meteorológico Nacional, mostrando que o máximo de pluviosidade havia ocorrido no Estoril, apesar das mortes terem acontecido nos bairros de lata de Lisboa e arredores e nas zonas pobres do Ribatejo. Também o Comércio do Funchal chamava abertamente a atenção para as causas sociais que haviam estado na base da catástrofe: «nós não diríamos: foram as cheias, foi a chuva. Talvez seja mais justo afirmar: foi a miséria, miséria que a nossa sociedade não neutralizou, quem provocou a maioria das mortes. Até na morte é triste ser-se miserável. Sobretudo quando se morre por o ser» (51). Os estudantes, facto que deve ter feito aumentar a sua repulsa pelas autoridades, estavam conscientes de que estas não só pouco fizeram como, pior ainda, procuraram esconder a sua inépcia dos portugueses. A revolta é patente num comunicado emitido na sequência de uma reunião de estudantes no Instituto Superior Técnico, em que se refere que «o governo não quis que fosse conhecida a falta de preparação e a desorganização dos seus serviços sociais» (52). Há pormenores esclarecedores: um grupo de estudantes que se encontrava no Rossio, de capa e batina, a fazer um peditório a favor das vítimas das cheias, é detido pela Polícia de Segurança Pública, por distúrbios à ordem pública (53).  
Na recordação do jornalista Joaquim Letria, «o que aconteceu com as cheias é perfeitamente incrível... havia discrepâncias no acesso à informação, o Ministério da Saúde dava uns números, o Ministério do Interior dava outros... durante muitos dias nós não pudemos dizer que morreram setecentas ou oitocentas pessoas e que havia outras tantas desaparecidas» (54). Ainda assim, como atrás se referiu, o Solidariedade Estudantil, distribuído em Lisboa mas onde estudantes do Porto como Pacheco Pereira tiveram papel essencial, demonstrava, com base nas estatísticas do Serviço Meteorológico Nacional, que os máximos de pluviosidade não se tinham registado nos bairros de lata de Lisboa ou nas zonas pobres do Ribatejo, mas antes no Estoril, onde não se registaram mortes nem danos materiais significativos. E perguntava: «Só Chuva?», sendo a resposta obviamente negativa (55). O programa radiofónico «PBX», produzido pelos Parodiantes de Lisboa e realizado por Carlos Cruz e Fialho Gouveia, converte-se num importante meio de informação entre as populações e as autoridades e chega mesmo a ultrapassar o seu tempo normal de emissão (56). E, a breve trecho, as manchetes dos principais jornais eram assaz eloquentes: «Chuva e Morte. Centenas de Vítimas» (Diário de Lisboa), «Noite Dramática em Lisboa e Arredores» (Diário de Notícias), «Horas de Pavoroso Dilúvio sobre Lisboa e Arredores. Mortos e Desaparecidos Envolvidos pela Enxurrada» (O Século). Na sua edição de 3 de Dezembro, o Diário de Lisboa falará já em 458 mortos, mas nos dias seguintes relatará a existência de mais vítimas. A 9 de Dezembro, o Governo faz publicar na imprensa uma nota oficiosa, para «exprimir os agradecimentos» a «todas as entidades que desenvolveram acções de apoio às vítimas das cheias», como a Legião Portuguesa ou o Movimento Nacional Feminino. Mas mesmo o Governo não deixa de reconhecer a dimensão do apoio dado pelos estudantes, aludindo, naquela nota, a «todas as boas vontades, designadamente as de estudantes, que espontaneamente se apresentaram» nos locais onde a enxurrada foi mais mortífera.




 


As associações de estudantes, porém, acabaram por fazer uma conferência de imprensa, onde denunciaram a censura imposta à informação que, entre o mais, escamoteava «a existência, num extensíssimo sector do território, de condições de vida de tal modo miseráveis que por elas em grande parte se explica a amplitude das perdas de vidas e haveres nas populações atingidas», bem como, por outro lado, «a participação dominante de organizações democráticas e livres, como as associações de estudantes, num trabalho que em primeira linha competia às instâncias sociais» (57). O trabalho dos estudantes no apoio às vítimas das cheias era também o triunfo dos pequenos núcleos democráticos das academias sobre o indiferentismo social das entidades públicas autoritárias. O movimento de solidariedade teve como efeito não só um conhecimento muito próximo – e dilacerante – da realidade social por parte de milhares de estudantes como uma politização destes num sentido vanguardista, a ponto de alguns, como Pacheco Pereira e Jorge Simões, afirmarem que foi desde então que o Partido Comunista Português foi ultrapassado no meio estudantil. «A partir daí, efectivamente, o PC passou a perder toda a vanguarda do movimento associativo e deixou de recrutar os melhores», opina Pacheco Pereira; «o PCP perde a influência total no meio estudantil» (58), tanto mais que a ideia de «agir», muito presente neste movimento, ia ao encontro, de pleno, com a doutrina pró-chinesa (59), alternativa ao modelo soviético do partido de Cunhal. Pacheco Pereira refere que se tratou de um «momento único da experiência estudantil militante dos anos 60», «quando centenas de estudantes organizados da Igreja e pelo movimento associativo foram ajudar as vítimas ainda a desgraça estava em curso, nas operações de salvamento, de recolha dos mortos, da ajuda aos vivos, de salvamento do pouco que sobrava entre a lama. Nessa intempérie […] morreu um número desconhecido de pessoas. A Censura nunca permitiu que se soubesse o número exacto e muita gente desapareceu desde então. Os estudantes associativos, a elite política das universidades, comunistas, católicos progressistas, esquerdistas, e muitos voluntários atraídos por uma solidariedade que não sabiam ser proibida, iam pela primeira vez conhecer o Portugal sobre o qual falavam em abstracto nos panfletos. Os mundos do salazarismo eram tão socialmente estanques que se podiam viver sem contactar com os traços mais revoltantes da miséria, que grassava nos arredores de Lisboa, e no interior do país, onde por essa altura centenas de milhares de portugueses faziam a valise para irem para França». Alude ainda à «descoberta deste mundo de pobreza suburbana, que se acentuava no reverso do “milagre económico português” que estava em curso, levando milhares de portugueses a viver em bairros da lata e em habitações degradadas da faixa ribeirinha. As chuvas atiraram-nos para o Norte e os estudantes que viam os bairros da lata e os esteiros pela primeira vez encontravam um mundo que não estava em nenhum manual. Sem conhecerem as fábricas, que eram uma reserva do PCP, os esquerdistas que nasciam como cogumelos daquela chuva voltavam-se para aquelas margens, como no exílio, encontravam na emigração nos bidonvilles. Uma nova massa, um novo campo de manobra» (60).



 


Na aldeia de Quintas, metade da população morrera. Ao chegarem às casas dos mortos, os bombeiros olhavam impressionados para as mãos marcadas de lama nas paredes, sinais de uma tentativa desesperada, mas infrutífera, para alcançar o telhado das habitações. Um novo país emergiu das cheias de 67: «verdadeiramente, as pessoas não tinham acesso ao país que existia, a pobreza e a miséria de muitas pessoas eram desconhecidas; subitamente, apercebemo-nos de que em Portugal havia gente que vivia na miséria e que todas as estruturas que a deviam proteger não funcionaram», diz Pacheco Pereira, salientando o especial impacto no meio estudantil: «os estudantes eram uma elite, a maioria das pessoas que tinha chegado à Universidade nunca tinha visto um pobre ou, melhor, havia os pobres como criados, nas ruas». «As cheias foram um "banho de realidade". Mais do que conceitos abstractos, panfletos, doutrinas, foram um factor de radicalização». Diana Andringa salienta, além da paralisia completa do Governo, a acção decisiva dos estudantes, que estiveram no local a desenterrar mortos e recebiam pedidos arrepiantes, como o de uma mulher a quem morrera toda a família e que lhes rogava que encontrassem no interior da casa fotografias dos familiares desaparecidos, como derradeira recordação. A então aluna de Medicina lembra-se de uma «raiva crescente nos estudantes», que certamente se agravou quando se aperceberam que a Censura não só cortava notícias como alterava a realidade - diminuindo, por exemplo, o número de vítimas (no ano seguinte, as estatísticas da gripe de Hong-Kong que vitimou mais de mil pessoas seriam igualmente escamoteadas 61); a dado passo, a GNR, ao invés de ajudar nas operações de socorro, prendia estudantes indignados. «O choque maior para mim foi ver passar os enterros seguidos e vermos nos jornais muito poucos mortos. Foi na altura que eu decidi na minha vida fazer uma opção. Houve uma consciência política que despertou», assinala Helena Roseta, que na altura entrevistou Nuno Portas e Gonçalo Ribeiro Teles sobre os efeitos das cheias (62).



 


As «cheias rossellinianas» (63) de 1967 marcariam presença num diálogo travado entre diversas personalidades – Alberto Vaz da Silva, Ana Maria Bénard da Costa, Bento Domingues, Eduardo Veloso, João Bénard da Costa, Luís Bénard da Costa, Maria Belo, Nuno Bragança, Teresa Martins de Carvalho e Vítor Wengorovius – que seria reunido no famoso caderno especial de O Tempo e o Modo com o título «Deus o que é?». A dado passo, Ana Maria Bénard da Costa afirma ter reencontrado Deus em Odivelas, o que merece um comentário algo irónico de João Bénard da Costa.
 
«Ana Maria Bénard da Costa – (...) Eu quando penso, tenho cada vez mais dúvidas e sinto-me cada vez mais longe de poder aceitar a ideia de um Deus ou seja lá do que for. Mas sei é que, quando na altura das inundações, passei o dia com os sapatos encharcados a distribuir cobertores em Odivelas, senti outra vez que Deus estava perto e que se alguma coisa Ele era, era aquilo, Portanto não posso desligar Deus dos outros e da eficácia da acção junto deles.
João Bénard da Costa – Isso, no fundo, é só porque tu foste educada, como eu, como nós todos, desde os tempos da J.U.C., etc., a acreditar que esse sacrifício é que tinha valor e que quanto mais perto estivéssemos do sofrimento dos outros, mais perto estávamos de Deus. Por isso é que tu sentes a tal plenitude da eficácia. Não só fomos educados a acreditar nisso como a dar valor ao sacrifício enquanto sacrifício, ao trabalho custoso, ao que dói, etc. Ou seja, se tu te sentias perto de Deus em Odivelas era porque te sentias perto da Cruz sem a qual não há redenção.
 Ana Maria Bénard da Costa – Pois, mas o que me parece é que essa presença do sofrimento dos outros é a presença do que nos transcende e portanto presença de Deus» (64).


 
 
Nuno Bragança interpretou a importância das «experiências» ou «vivências» narradas por Ana Maria Bénard da Costa como um «acordo da pessoa consigo própria através dum desegoísmo [que] a vai inevitavelmente arrancar ao conforto imediato, a vai pôr em confronto com realidades que a solicitam para fora dela» (65). O tema do conforto/desconforto será recolocado por Luís Bénard da Costa, que confessou sentir o «terror do inconforto» mas, em simultâneo, o «terror do conforto» (66), o que não deixa, em boa medida, de revelar um «complexo de identidade», para usar o termo já cunhado para retratar o espírito de muitos estudantes parisienses de Maio de 1968. Um complexo que ainda hoje é visível, por exemplo, na narrativa autobiográfica de Zita Seabra, que retrata o modo como os jovens dos seu tempo encaravam a revolução e o marxismo: «todos, como eu, filhos-família, a falar em nome de um proletariado que não conheciam e nunca tinham visto na maioria dos casos, e todos a gritar pela revolução armada» (67). Ana Maria Bénard da Costa rejeitava que a sua orientação para os outros se identificava com a tradição caritativa tradicionalista, bem pelo contrário: «eu não estou de maneira nenhuma educada, pelo menos desde os meus tempos associativos, a achar que fazer mera caridade está certo. Eu estou educada, até desde os meus vinte anos – e já tenho trinta, portanto, há dez anos – a pensar que isso é completamente errado que é alienante, que atrasa a revolução, etc., etc.» (68). Aqui se entrevêem os dilemas de uma mulher que, ao mesmo tempo, redescobria o divino nos subúrbios de Lisboa mas não queria que daí, da sua actividade de auxílio aos outros, resultasse qualquer atraso para a revolução. Os «vencidos do catolicismo» viviam angustiados entre o Deus de Odivelas e a revolução que tardava.
As cheias, além do activismo estudantil, foram para muitos o ponto de apoio para uma maior intervenção no campo social, que conduzirá a um despertar para a acção política, a qual, estando como estava dominada pela problemática da guerra, irá conduzir muitos à Capela do Rato.


 

 
Um deles, aí detido, o antigo jocista Homero Cardoso, narra assim o processo de consciencialização social que atravessou:
 
«Faço parte de um grupo que primeiro descobre a acção social, a luta pelos pobres oprimidos. Estava na Flama quando se dão as cheias de 1967 e foi uma coisa que, até de um ponto de vista meramente jornalístico, teve um impacto muito grande, na redacção da Flama e nas outras redacções. Quando as cheias acontecem, toda a gente aparece num instante na redacção da Flama. Andava toda a gente à procura do fotógrafo, o João Tinoco. Simplesmente, ele nem passara pela redacção, tinha ido logo a correr para lá. Apareceu mais tarde e tinha feito uma fotografia que seria premiada, de uma mulher que, no meio daquela desgraça toda, tentava salvar o seu aparelho de televisão. Tínhamos uma equipa óptima na Flama e chegámos até a enfrentar a Igreja, porque esta queria que nós imprimíssemos na União Gráfica e nós opusemo-nos e ganhámos.
 
Isto faz parte da minha formação como homem. A minha formação começou com essa dimensão social e só depois passou para a parte política. Nós muito cedo começámos a ter um conhecimento concreto da realidade. Um exemplo: em Arroios fomos ajudar a construir uma barraca para uma pessoa que nem sequer uma barraca tinha para dormir! Fui à Fábrica Portugal pedir chapas, arranjámos pedaços de madeira e lá construímos a barraca, para os lados das Portas de Benfica. Nós quotizávamo-nos para arranjar dinheiro para dar alimentos às pessoas, tínhamos muito esse trabalho com as pessoas. Na JOC fizemos uma coisa muito importante na formação de muita gente, que foi a chamada “Carta Operária”. Para fazermos a “Carta Operária” éramos obrigados em cada zona a assinalar tudo: os cafés, os bares, os locais de prostituição, onde viviam os operários, os ricos, o que é que faziam, etc. Fui uma semana para Vendas Novas para fazer a “Carta Operária” e até dormi na casa do padre, na igreja. Esse trabalho de levantamento serviu depois de modelo e andei pelo país todo a divulgar o projecto. Estive na preparação desse trabalho todo e, inclusivamente, fui até Estrasburgo participar num encontro preparatório desse movimento, da JOC Internacional. Foi aí que começou a abertura da JOC ao exterior. Na elaboração do projecto da “Carta Operária” tive até alguns conflitos com certos padres, mas aí eu dizia-lhes: “uma coisa é Igreja, isto é a JOC”. Quando fiz o relatório ainda não tinha a noção de que fizera um trabalho de campo sociológico muito importante. Na altura, muita gente colaborou, como, por exemplo, o Cesário Borga. Assim, quando vamos para a rua, já vamos com outra preparação. E a acção política surge a seguir. Nós descobrimos um país onde havia um conjunto de pessoas, que eram muito poucas, extraordinariamente ricas e um número enormérrimo de pessoas que eram extraordinariamente pobres e que eram, sobretudo, extremamente humilhadas. Uma acção muito importante para nós naquela época era fazer-lhes ver que estavam a ser humilhadas e dar-lhes alguma dignidade. Lutar contra a humilhação em prol da dignidade. Porque havia pobreza a sério! Na Graça havia pequenos bairros operários e em Arroios eram quintais e pátios onde as pessoas viviam em condições inumanas, lançavam os dejectos na rua!
A JOC de Arroios foi uma espécie de “viveiro” para muita gente. O padre Mareca, como a gente lhe chamava, chegou a ser preso. A sede da JOC de Arroios já não era na igreja, era fora da igreja, numa casinha que tínhamos conseguido alugar já fora da igreja e, portanto, tudo aquilo já tinha uma intenção e uma função políticas. A JOC já não estava nas igrejas, já tinha saído para as ruas, para as colectividades, para os cafés. Nessa altura fui dirigente de uma colectividade, uma associação de antigos alunos da Escola Veiga Beirão. Era uma acção social e cívica em que a parte política estava claramente associada» (69).

 

 

 


 
De Tübingen, em Junho de 1968, Hans Küng responderia ao inquérito de O Tempo e o Modo, num texto que seria publicado em tradução de Rogério Martins, e que começa por análise que, de uma forma bastante ilustrativa e penetrante, interpela a realidade da época e do sentido que, nesse concreto e preciso contexto, adquiria a pergunta: «Deus o que é?».

 

«O que é Deus? Esta pergunta tem que ver com a inquietação, os protestos e as demonstrações da nossa juventude em Praga, Varsóvia, Berlim, Tóquio. Essa inquietação tem causas que são muitas, e que são diferentes conforme os países: as deficiências das universidades, as numerosas indignidades da política e o carácter “repressivo” e a falsa moral do “establishment” social de cada país, etc. Como denominador comum poderia talvez indicar-se a “segunda revolução técnica” ainda não dominada. A um nível ainda mais profundo revela-se esta inquietação exactamente entre os filhos e as filhas, bem instalados e amimados, daqueles pais que ainda tiveram que lutar com aspereza e entusiasmo para possuírem dinheiro bastante, e uma bela casa, automóvel, luxo: a questão do sentido de tudo, que lhes é agora oferecido sem discussão e que já não pode constituir um objectivo. Uma nova busca do sentido das coisas nesta “sociedade afluente” cujo fim muitas vezes é a total falta de sentido; uma falta de sentido que parece confirmada pela irracionalidade de toda a dinâmica civilizacional e pela contradição duma sociedade que, num triunfo sem precedentes da técnica, se lança em conquistas das estrelas mas ao mesmo tempo não consegue resolver os problemas mais primitivos da terra (...)» (70).
 
Na perspectiva de Küng, a questão situava-se, portanto, na perda de sentido que os filhos privilegiados da «sociedade afluente» tinham de enfrentar ou, melhor dizendo, na necessidade de redescoberta de um novo sentido de tudo que inquietava os baby boomers, cujos valores-chave haviam sido abalados por uma tríplice crise, cujos sinais se tornarão mais visíveis nos anos vindouros, sendo questionados valores como a razão, o progresso e a nação (71). Para alguns dos que haviam passado pela fé, a questão não se colocava dessa maneira; havia, isso sim, que descobrir um sentido alternativo, após terem perdido a crença em Deus e, sobretudo, a confiança nas estruturas e instituições que a sustentavam. Um caso paradigmático é o de João Bénard da Costa, que do mesmo passo que admite, com uma desarmante sinceridade, que «a palavra Deus continua a ser o centro da minha vida», confessa ter deixado de ser católico e de «aceitar um determinado sistema moral e um determinado sistema dogmático que a Igreja Católica encarna e mantém (e que não poderá deixar de encarnar ou manter, ao contrário do que muitos pensam), no momento em que descubro em todas as institucionalizações da religião, em todas as igrejas, o gérmen essencialmente reaccionário que as torna necessariamente instrumentos de repressão e de oposição a uma radical libertação do homem» (72). O que aqui emerge é, acima de tudo, um afastamento relativamente à religião institucionalizada, que não será partilhado por aqueles que ainda mantinham a esperança de uma regeneração eclesial pós-conciliar, mais ou menos «revolucionária», ou que procuravam uma vivência alternativa da fé cristã, que passava menos por uma integração nas estruturas da Igreja do que pela vivência concreta do serviço aos outros – algo que as cheias de 1967 exuberantemente mostraram. 
 
As cheias, reconheça-se, não foram a causa única da referida perda de controlo do PCP sobre os estudantes da capital, não podendo esquecer-se que, sobretudo devido às denúncias de Nuno Álvares Pereira, o sector estudantil comunista de Lisboa, ao contrário do seu congénere coimbrão, coordenado por Valentim Alexandre, sofreu um «verdadeiro terramoto» em 1964-1965 (73). Além disso, existe uma mutação cultural relativamente à qual a evocação memorialística de Jorge Silva Melo é, a este respeito, assaz impressiva:
 
«Quando cheguei à Faculdade, o PC andava a ver se apanhava o comboio que outras forças políticas - muito menos organizadas - já tinham feito partir, fartas de estar à espera. Já se lia Mao, já havia quem ouvisse Argel e até Tirana, discutia-se Althusser e Foucault, olhava-se com circunspecção e curiosidade o PCI de Berlinguer, criticava-se o então estalinista Garaudy, já se falava em acção armada, já católicos defendiam a libertação das colónias, já grupos não filiados politicamente estavam perto de algumas realidades - operárias, sindicais... - onde até aí só o PC chegara. Padres havia perto das lutas operárias, cooperativas nasciam - e não só de consumo cultural - e até sindicatos se formavam fora da órbita daquilo que até aí (e desde o fim da Guerra de Espanha, com a aniquilação final dos anarquistas) fora a oposição dominante. E até a História começava a ter outros interesses: o Movimento Operário português começava a ser estudado e começavam a aparecer publicações diversas em volta desse tema até aí tabu. Emídio Santana reaparecia.
Entre 1962 e 1969, a oposição andou sem liderança única, partia em muitas direcções possíveis, perdia unidade mas ganhava diversidade, nasciam ideias [...], morrera a doutrina, nascera, débil embora, mas nascera o debate. E foram esses vários rios divergentes, essas várias forças frágeis mas determinadas que tiveram a novidade do "basismo" da CDE de 69. Para essa CDE confluiu tudo, católicos, comunistas, nem uma coisa nem outra, pura gente de boa vontade farta do autoritarismo. Um luxemburguismo informal estava no ar.
E o movimento intelectual que aí culminou - e que, de certa forma, foi despoletado cerca de dez anos antes pela avidez com que se viveu a Campanha de Delgado - foi de uma vitalidade e de uma qualidade como não creio que se tenha repetido depois. A quantidade de rupturas formais e estruturais, a qualidade das heterodoxias que nasceram nesses anos - da pintura à literatura, ao cinema, ao teatro, ao ensaio, à polémica, às viagens, à renovação da crítica - não voltaria a ter lugar» (74).
 
 
 
António Araújo
 


 
 
NOTAS
 
(1) Trata-se de uma convergência que também se notava nos movimentos contestatários dos anos sessenta, alguns dos quais julgavam ser moralmente superiores a um establishment corrompido: «o facto de sermos moralmente superiores era importante, as pessoas estavam a fazer uma escolha vital entre uma opção ou outra. A ruptura com o velho mundo e a busca de um mundo novo tinha uma conotação apocalíptica. E as pessoas escolhiam porque estavam convictas não apenas racional mas também emocionalmente», refere um antigo estudante da London School of Economics, que aí participou num sit-in em 1967: cfr. McLEOD, Hugh – The Religious Crisis of the 1960s. Oxford: Oxford University Press, 2007, p. 143. Mario Savio, líder dos protestos na Califórnia, provinha de um sólido ambiente católico, tendo os seus pais alimentado o sonho de que viria a abraçar uma carreira eclesiástica. O seu discurso, como nota McLeod (ob. cit., pp. 144-145), é eivado de referências de cariz ético ou religioso: «A razão pela qual os liberais não nos compreendem é porque não entendem que existe mal neste mundo». McLeod refere mesmo que, para muitos, o marxismo se tornou «uma nova fé».
(2) In Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, AOS/CO/PC-77-A.
(3) Cfr. Situação e opinião dos universitários. Inquérito promovido pelas direcções-gerais da Juventude Universitária Católica. Lisboa: CODES – Gabinete de Estudos e Projectos de Desenvolvimento Sócio-Económico, SCRL, 1967, p. 61. Sobre este documento, cfr. FONTES, Paulo – Juventude Escolar Católica / Juventude Escolar Católica Feminina (JEC/JECF). In Dicionário de História de Portugal. Dir. de António Barreto e Maria Filomena Mónica. Vol. 8. Suplemento F/O. Porto: Figueirinhas, 1999, p. 349. AMARAL, Ana Filomena – Maria de Lourdes Pintasilgo. Os Anos da Juventude Universitária Católica Feminina (1952-1956). Coimbra: Edições Almedina, 2009, pp. 150ss.
(4) Cfr. Situação e opinião…, cit., p. 75.
(5) Apud GOMES, Adelino – A JUC, o jornal Encontro e os primeiros inquéritos à juventude universitária. Contributos para a história das modernas ciências sociais. Sociologia. Problemas e práticas. 49 (2005), pp. 99-100.
(6) «o social e o político confundem-se. A intervenção política tinha uma motivação muito cristã. Achávamos que era incompatível com o Evangelho não actuar, mas sempre na perspectiva de não aderir à violência. Eu nunca aderiria à luta armada. Mas, ao mesmo tempo, apesar de ter admiração pelo Gandhi ou pelo Luther King, também nunca tive o culto da não-violência»: entrevista a Luísa Sarsfield Cabral, em 9 de Outubro de 2010.
(7) Cfr. CABRAL, Manuel Villaverde - Maio de 1968, uma revolução cultural. Visão. História. 1 (Abril de 2008), p. 98.
(8) Cfr. LEITE, Vasco Pinto – O sonho desfeito ou quanto vale a vida de um homem? Lisboa: Tribuna da História, 2003, p. 122.
(9) Cfr. a intervenção de João Oliveira Martins no colóquio «Tempos de Transição» – 1ª Sessão: A Economia, as Finanças e as Obras Públicas, (Lisboa, Centro Nacional de Cultura, 24-IX-2008).
(10) Cfr. FERREIRA, Adília – O discurso da resistência ou a resistência do discurso. Os assistentes sociais no movimento de oposição ao Estado Novo (1969-1973). In www.cpihts.com. MARTINS, Alcina Maria de Castro – Serviço social crítico em tempos de ditadura. In www.cpihts.com. Id. – Génese, emergência e institucionalização do Serviço Social português. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1999. Cfr. ainda MOURO, Helena e CARVALHO, Anabela – Serviço Social no Estado Novo. Coimbra: Centelha, 1987. Em 13-II-2010, no Seminário de História Religiosa Contemporânea organizado pelo Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, foi proferida por Isabel Santos uma conferência sobre o tema, com o título «O ambiente católico e o nascimento do Serviço Social». Note-se que o Instituto de Serviço Social de Lisboa havia sido presidido pelo Pe. Honorato Rosa e que este, durante o seu mandato, não só se manifesta contra as posições do Governo relativamente à ida de Paulo VI a Fátima (cfr. NEGREIROS, Maria Augusta Geraldes – Serviço Social, uma profissão em movimento. A dinâmica académico-profissional no Portugal pós-74. policop. São Paulo: s.n., 1999, p. 91) como proíbe que as alunas de serviço social façam estágio no Movimento Nacional Feminino: cfr. BRANCO, Francisco – A construção do conhecimento do Serviço Social em Portugal na década de 60. Estudos e Pesquisas. 3 (1992), p. 68. Uma eloquente prova do «progressismo» dos assistentes sociais é a nota informativa que, em 12-II-1973, os assistentes do SAS [Serviço de Acção Social], Maria Odete Fabião e Jaime Cortesão elaboram, relativamente ao Relatório de 1971/72 da JNACISJF [Junta Nacional da Associação Católica Internacional ao Serviço da Juventude Feminina], onde se afirma, entre o mais, que «o conceito de rebeldia é relativo», se qualifica de «bafienta» a actuação da Junta e se refere que apenas a Direcção de Lisboa se destacava entre a «pobreza geral», por ser a «mais arejada», «com horizontes um pouco mais largos». Afirma-se nessa nota: «Não duvidamos da bondade e justeza de intenções que anima a ACISJF, duvidamos sim da eficiência dos meios e do carácter positivo dos resultados efectivamente obtidos. Nota-se que as diversas direcções estão convencidas de estar fazendo o seu melhor; mas estarão por alguma forma ao serviço da juventude feminina tal como seria de desejar? Não nos parece. Se após tantas reuniões de estudo sobre problemas inerentes à juventude ou que a ela dizem respeito tudo quanto há a fazer é expulsar o elemento rebelde, permitimo-nos duvidar da eficiência dos resultados de tais reuniões. Mesmo concordando ser o problema complexo. Convirá, pois, alertar as Direcções e a de Leiria em particular de que a expulsão além de não representar solução, só adia o problema, não abona dada em favor da obra e da acção. O conceito de rebeldia é, porém, relativo e se bem nos parece dada a orientação seguida pela ACISJF, não será difícil a esta catalogar qualquer pessoa como elemento rebelde ou indesejável. Terá a ACISJF medo de enfrentar a realidade do momento que passa? Do relatório ressalta uma actuação bafienta, desgarrada da realidade, a latere da vida de hoje, que não se compadece com tabus. Assim, tal educação, terá forçosamente de provocar reacção por parte dos espíritos que esperariam outra coisa. Dentre a pobreza geral a Direcção mais arejada, com horizontes um pouco mais largos, é, sem dúvida, a de Lisboa. Porque repugna à Direcção de Lamego formar uma república? Tal facto evidencia bem o espírito que preside à Direcção da obra. Parece-nos haver um longo caminho a percorrer e não creio que seja suficiente o recurso à “ajuda Divina e a esperança no auxílio que daí provenha”!... 2/2/73 Maria Odete Fabião e Jaime Cortesão». O director do SAS, Heitor Salgueiro, exara, nesse mesmo dia, um despacho eivado de ironia: «Vejo com prazer que a Dr.ª Maria Odete e o Dr. Cortesão são contra os bafios e os tabus. À Dr.ª Maria do Rosário, para breve nota. 12-Fevereiro-1973. Heitor Salgueiro». Rosário Sande elabora uma nota que vai totalmente ao encontro da informação dos técnicos: «1) – Concordo em absoluto com a informação da Dr.ª Maria Odete e Dr. Jaime Cortesão. 2) – O relatório da JNACISJF revela inequivocamente quanto de desfasados e perniciosos são os métodos utilizados por associações desta índole. 3) – Desde a melhoria das refeições no dia da casa” à mentalidade (moderna) de algumas raparigas que as torna desobedientes e difíceis e à consequente expulsão até ao pedido de protecção e auxílio divino, tudo é extremamente significativo neste relatório. 4 – Resta-me comentar a existência de iniciativas e de actuações como sejam as desta JNACISJF e esperar confiada numa remodelação eficaz e à altura das exigências actuais. 26-2-73. a) Rosário P. Sande». O director elabora um despacho final, de novo muito irónico: «Amen. Arquive-se. 26-Fevereiro-1973. Heitor Salgueiro»: in Instituto dos Arquivos Nacionais / Torre do Tombo, Arquivo do Ministério do Ministério do Trabalho e Solidariedade, Serviços de Acção Social, Cx. 75. A importância destes núcleos é confirmada num testemunho oral de um professor: «... havia um movimento muito interessante na Assistência ligado aos institutos da Direcção Geral de Saúde e Assistência. Pessoas muito interessantes, muito vivas, muito inovadoras, faziam coisas espantosas... que, depois veio rebentar na capela do Rato e nos movimentos contra o colonialismo... mas saía dali, daquelas pessoas que eram espantosas»: cfr. GONZÁLEZ, Pedro Francisco – El Movimiento de la Escuela Moderna Portuguesa. policop. Salamanca: Universidad de Salamanca-Facultad de Educación, 1999, p. 271.
(11) Entrevista a Zulmira Marinho Antunes, em 14 de Julho de 2010.
(12) Entrevista a Maria da Conceição Moita, em 15 de Janeiro de 2007.
(13) Cfr. a interessante análise do percurso de Francisco Lino Neto feita precisamente à luz da ideia de «consciência»: cfr. REVEZ, Jorge – Francisco Lino Neto (1918-1997): um percurso pelo catolicismo «consciente». policop. Lisboa: s.d., mas 2009 [comunicação nas «Jornadas de Estudo Crentes e Políticos: protagonistas sócio-políticos na sociedade portuguesa contemporânea», Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 9-V-2009].
(14) «1 – Reunidos para celebrar e anunciar, mais uma vez, a Ressurreição de Jesus Cristo, sentimos fortalecida a nossa Fé e a nossa Esperança no Homem, capaz de ser livre e fraterno, capaz de dominar o mundo e aproveitar das suas potencialidades, capaz de inventar novas formas de viver em justiça, liberdade e paz. 2 – É com esta atitude de fé e de esperança que olhamos para a sociedade em que vivemos. Reconhecemos que nela existem situações de injustiça, violência e opressão contra as quais estamos dispostos a lutar. Reconhecemos que existem mecanismos e forças que impedem a participação de direito e de facto, de todos os cidadãos na escolha e na construção da sociedade em que querem viver. Vemos nestes mecanismos e forças, razões de imobilismo e estagnação do povo, e indirectamente, factores que perpetuam situações de opressão e injustiça, que  cremos, ser nosso dever denunciar e ultrapassar. 3 – Sabemos que não estamos sós. Sentimo-nos unidos a todos aqueles que, acreditando no homem e aspirando à justiça, à unidade e à paz, se empenham num esforço sincero na luta por um mundo mais humano. Connosco estão também os mais pobres, aqueles cuja voz é fraca, mas que têm por si a força da razão e de se verem injustamente oprimidos. 4 – Não queremos viver esta Páscoa, sem nos interrogarmos, séria e criticamente, acerca da Igreja de que fazemos parte e da sociedade em que vivemos. Dos erros de uma e de outra nos sentimos solidários e cúmplices na medida em que não tivermos agido até aos limites das nossas próprias forças. 5 – Em relação à sociedade portuguesa, queremos participar na criação de condições para uma transformação profunda, que torne possível a curto prazo: a) assegurar a todos os homens iguais oportunidades de acesso ao progresso material, à saúde, à educação e cultura, à habitação, à justiça e à segurança social; b) garantir a participação concreta de todos os portugueses no processo de desenvolvimento, na gestão económica e na organização da sociedade; c) colocar no governo das instituições ou na gestão dos serviços os mais capazes, de pôr termo imediato às situações de privilégio baseadas no dinheiro, no nome ou nas conveniências políticas de circunstância; d) fazer existir uma Imprensa livre e responsável, devidamente defendida dos abusos do poder económico ou de grupos políticos; e) permitir o acesso de todos à cultura e à sua expressão livre postas ao serviço dos homens e não dos sistemas; f) tornar viável um tipo de Universidade sintonizada com as aspirações e necessidades do povo e capaz de se pôr ao seu serviço; g) fazer surgir uma nova ordem de organização económica orientada para a satisfação das necessidades individuais e colectivas e para o bem-estar efectivo do povo; h) eliminar as actuais desigualdades na repartição do rendimento; i) promover o exercício do direito das liberdades cívicas fundamentais, designadamente a de associação; j) pôr termo à guerra, procurando activamente soluções que, rapidamente, façam a paz. 6 – Quanto à Igreja, em Portugal, hoje, as nossas aspirações vão ao encontro do movimento de renovação, cujos frutos são já visíveis em outras comunidades e que, por isso, constituem reforço para a nossa própria esperança e empenhamento. Queremos construir uma Igreja que cada vez mais se mostre aberta ao Espírito, atenta aos sinais dos tempos e pronta a implementar, aqui e agora, em palavras e gestos, a Boa-Nova do Evangelho. Queremos construir uma Igreja – tal como Cristo a desejou – companheira de todos os homens, sintonizada com as suas angústias e aspirações, especialmente atenta aos pobres e oprimidos e desvinculada de quaisquer compromissos com o poder económico e político. Queremos construir uma Igreja centro de unidade e comunhão de quantos se empenham na aventura de libertar o homem das amarras de injustiça e opressão. Queremos construir uma Igreja, comunidade dos crentes e expressão inteligível da fé em Jesus Cristo. Aquele para quem a libertação dos homens não foi apenas promessa ou intenção vaga, mas experiência pessoal de empenhamento levado às ultimas consequências. 7 – É este o nosso sentir na Páscoa de 1972. Explicitá-lo constitui, para nós, um gesto ditado por um imperativo forte de consciência e é parte integrante de um projecto de conversão pessoal e comunitária ao Evangelho»: in www.noticiasdaamadora.com.pt
(15) Cfr. a mensagem de Paulo VI para o «Dia da Paz» de 1-I-1971: cfr. COMISSÃO NACIONAL JUSTIÇA E PAZ - Caminhos da Paz. No 25º aniversário da Primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz. Lisboa: Rei dos Livros, 1992, p. 49. Os teóricos moralistas da altura diziam, por ex.: «a desordem é profunda. Atinge os jovens, ávidos de mudança, tanto quanto os mais velhos, que se tornam perplexos ante os acontecimentos»: cfr. COSTE, René – Moral para uma Sociedade que se Transforma. Trad. brasileira. São Paulo: Edições Paulinas, 1976, p. 15 [a edição original francesa é de 1969].
(16) Para um breve apontamento, cfr. MARQUES, Guiomar Belo - Chuvas diluvianas na Grande Lisboa. In Os Anos de Salazar. Vol. 23 – 1967 – Ballet rose. Dir. de António Simões do Paço. s.l.: Centro Editor PDA, 2008, pp. 40ss. Cfr. ainda http://www.cm-odivelas.pt/CamaraMunicipal/ServicosEquipamentos/ProteccaoCivil/Cheias1967.htm . É curioso um poema publicado na Internet, da autoria de «São», intitulado «Pavana (para as vítimas de 1967)»: Água, pedras, lamas; / Gritos, prantos e suspiros. / / Pessoas mortas, arrastadas; / Corpos perdidos no vazio. // E os poderes ausentes... / E a Igreja longe... / Ah! Mas veio a polícia... / Veio a polícia / Com quem quis receber / O pagamento devido /Por um tecto já perdido! // Vieram também / As caridosas damas / Com uma lata de sardinhas /Para as cinco crianças / De uma família! // E só estudantes... // E só estudantes sujaram / As mãos na água e na lama / Fazendo a sementeira / Dos cravos de Abril!!»: in http://saobanza.blogspot.com
(17) «a) Em que medida somos culpados da existência à nossa volta de habitações tão frágeis como as que provocaram a morte de tantos pobres? b) Como poderemos contribuir para que não sejam construídas habitações que permitam a repetição de trágicas situações como as actuais? c) Que poderemos fazer para resolver o problema dos desempregados, dos que ficaram privados dos seus bens e sem qualquer amparo familiar? d) Como encarar as manifestações de solidariedade internacional para atender a dificuldades que sabemos não poderem ser resolvidas, de forma adequada, pelos nossos próprios meios? e) Como preparar e viver um Natal Cristão, verdadeira encarnação, em 1967, d’Aquele que nasceu numa barraca, pobre, ao frio e sem roupas? Como seres livres e responsáveis, chamados, sem qualquer discriminação, a colaborar, solidariamente com todos os outros homens, na construção dum mondo novo, mais justo e humano, o que vai ser para nós o próximo Advento e Natal?»: in Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra, Pasta Igreja Católica/Estruturas/Acção Católica.
(18) «A propósito… dos temporais na Região de Lisboa. Todos os jornais o noticiaram. A televisão, a rádio fizeram comentários. Foram feitos apelos. Houve entrevistas. Dolorosas pelo sofrimento que revelavam. A opinião pública do país e do estrangeiro agitou-se. Houve campanhas de solidariedade. Quem poderia ficar indiferente perante os milhares de desempregados, perante aquelas quinhentas pessoas que morreram, perante os milhares que ficaram sem lar, sem nada a não ser as poucas roupas que tinham vestidas!!! Agitou-se a opinião pública. “Os temporais são sempre uma calamidade, são horríveis”. “Até parecia o fim do mundo”. Serão apenas os temporais a causa de tudo o que sucedeu na noite de 25 para 26 de Novembro? Não sei se esta interrogação se levantou no teu espírito, no entanto, ela pôs-se a muitas pessoas. Ela pôs-se a mim também. Vivo exactamente num bairro dos que foram mais assolados pelos temporais. O maior número de mortos e desaparecidos registou-se perto da minha casa. No entanto, a mim nada me sucedeu. Porquê? Aos vizinhos da minha rua e das ruas mais próximas nada sucedeu. Porquê? Quem morreu, então, se viviam perto de mim? Morreram e desapareceram (na grande maioria) aqueles que não tinham casa. Poderá chamar-se casa a uma pequena barraca feita de madeira (muitas vezes já velha) onde vivem amontoados pais, sogros, filhos? Poderá chamar-se casa àquela pequena construção de pedra e cal que com um temporal mais forte cai por terra como as casas feitas por mãos de criança? Morreram e desapareceram os mais pobres entre os mais pobres!!! Uma onda de solidariedade invade todo o país. Dá-se o que se tem… e em muitos casos, o que faz falta, como eu vi no meu bairro. Aqueles que quase nada têm foram os primeiros a correr numa atitude de solidariedade para com os outros que nessa altura eram ainda mais pobres. Eu também fui, mas dentro de mim a inquietação continua. Bastará ter agora uma atitude de solidariedade? Bastará procurar agora dar alimentação, roupas e alojamento àqueles que ficaram sem nada? E os outros milhares por esse país fora que vivem em condições semelhantes, embora desta vez não tenham sido martirizados pelos temporais? Não terão todos os homens direito a um lar, a condições de vida que respeitem a sua dignidade? Solidariedade nesta hora? Sim! Mas muito mais do que isso, que estes temporais, com todas as suas graves consequências, sejam um grito de alerta em todas as consciências. Não basta a solidariedade nas horas de dor. É preciso que ela exista em todos os momentos ao serviço duma Justiça que abranja todos os homens. É preciso que ela continue, em mim, em ti, em todos os que nos rodeiam, para em conjunto procurarmos lutar para que cada homem seja respeitado e possua condições de vida, de alojamento, de alimentação, de trabalho, plenamente justas. Que poderás fazer como construtora dum mundo em que a Justiça não seja apenas uma palavra, mas ACTOS?»: cfr. Vida e Alegria, Dezembro de 1967.
(19) Há quem aponte números mais elevados, de cerca de 700 mortos, a que acresceram 1.100 desalojados: cfr., por ex., CATULO, Kátia – Nunca choveu tanto como em 67. Diário de Notícias, de 25-XI-2007. Em contrapartida, as autoridades preferiam situar os óbitos em cerca de 250. Na altura, os jornais falaram em 422 mortos: cfr. CARDINA, Miguel – As cheias de 1967. In ppresente.wordpress.com.
(20) Entrevista a António Janela, em 13 de Maio de 2007.
(21) Entrevista a Armindo Garcia, em 14 de Março de 2009.
(22) Cfr. COELHO, Mário Brochado – Confronto. Memória de uma cooperativa cultural. Porto, 1966-1972. Porto: Edições Afrontamento, 2010, p. 72, que dá nota também de um projecto de colóquio sobre a habitação (pp. 99-100).
(23) Cfr. MESQUITA, João - Uma crise estudantil quase desconhecida. In AA.VV. - Os Anos de Salazar. cit., Vol. 21, pp. 82ss; BERNARDO, João - Universidade de Lisboa, 1965. In AA.VV. - Os Anos de Salazar. cit., Vol. 21, pp. 88ss. É interessante a documentação existente no Biblioteca-Museu República e Resistência, BMRR/Cidade Universitária, Pasta 19, Estudantes - 1965-1968. Sobre a importância das cheias de 1967 como «evento imprevisto e incontrolável» que serve de ponto de partida para a construção de uma ideia de «voluntariado social como ameaça política», cfr. a análise de ACCORNERO, Guya – Efervescência Estudantil. Estudantes, acção contenciosa e processo político no final do Estado Novo (1956-1974). policop. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 2009, pp. 103ss. Cfr. ainda ACCORNERO, Guya – Revolucionários antes da revolução: o movimento estudantil português nos anos do marcelismo. Comunicação ao colóquio «Estado, Protesto Popular e Movimentos Sociais no Portugal Contemporâneo» (Universidade Nova de Lisboa-Instituto de História Contemporânea, Junho de 2011).
(24) Cfr. o depoimento de Cecília Supico Pinto in A Guerra de África, 1961-1974. Dir. de José Freire Antunes. Vol. 1. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 430.
(25) Cfr. PIMENTEL, Irene Flunser - A Polícia Internacional de Defesa do Estado. Direcção Geral de Segurança (PIDE/DGS), 1945-1974. História da polícia política do Estado Novo. policop. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2006 [tb. publicado em livro: PIMENTEL, Irene Flunser - História da PIDE. Lisboa: Temas e Debates, 2007], pp. 323-324. SANTO, Sílvia Espírito – Cecília Supico Pinto. O rosto do Movimento Nacional Feminino. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, pp. 158ss. Em entrevista ao Expresso/Única, de 16-II-2008, Cecília Supico Pinto afirma conhecer a vigilância que sobre ela a PIDE exercia: «eu sabia, percebia que me estavam a ouvir e a seguir». Para uma sinopse sobre a acção do Movimento Nacional Feminino, cfr. SANTO, Sílvia Espírito - O MNF na retaguarda da guerra colonial. In Os Anos de Salazar. Vol. 18, cit., pp. 127ss.
(26) Cfr. OLIVEIRA, Maria Luísa Brandão Tiago de – O Serviço Cívico Estudantil (1974-1977). Estudantes e povo numa conjuntura revolucionária. policop. Lisboa: Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, 2000, pp. 162ss [tb. publicado em livro: OLIVEIRA, Luísa Tiago de – Estudantes e Povo na Revolução (1974-1977). O serviço cívico estudantil. Oeiras: Celta, 2004].
(27) Cfr. GRAÇA, Júlio – Operários falam. O trabalho e a vida. Lisboa: Iniciativas Editorais, 1973, p. 169.
(28) Cfr. MARQUES, Guiomar Belo - A Serra de Sintra devorada pelas chamas. In Os Anos de Salazar. Vol. 22 – 1966, cit., pp. 115ss.
(29) «CIRCULAR Nº 3. Assim como foram urgentes as informações e os pedidos que te fizemos no decorrer da campanha de auxílio aos sinistrados, também agora é importante informar-te do fecho do CCAJ (Centro de Coordenação da Acção Juvenil de Auxílio aos Sinistrados) e das suas implicações. O CCAJ nasceu, serviu e acabou. Mas continuam as necessidades das camadas sociais que vivem permanentemente em precárias condições humanas. É DE TUDO ISTO QUE VEM FALAR ESTA CIRCULAR: Como nasceu o CCAJ. Na noite de 25 para 26 desabou sobre Lisboa e arredores uma violenta chuvada que, caindo sobre áreas bastante populosas, algumas com deficientes condições habitacionais e de escoamento de águas, causou elevados prejuízos materiais e humanos. Perante a amplitude do desastre e a não suficiência de auxílio a essas populações, cedo despertou nos estudantes liceais, a necessidade de concretizar a sua solidariedade para com os atingidos. Na noite de domingo 26, num clima de completa espontaneidade, um pequeno grupo de colegas reuniu-se na Martens Ferrão e tentou, com a colaboração de responsáveis de liceus, organizar o nosso auxílio às áreas sinistradas, começando por elaborar a circular que recebeste e que apelava para a tua presença activa. (Foi o “É urgente” Nº 1, que marcou o início do CCAJ). A partir daí foram surgindo progressivamente os serviços necessários ao andamento da campanha. Entretanto, tendo essa circular sido publicada por vários jornais de Lisboa, surgiram de muitos particulares múltiplas ofertas que se vieram juntar às nossas. O que se fez. Pelas características inerentes aos diversos modos de auxílio, foi surgindo naturalmente uma distinção entre os seguintes sectores: 1. O dos donativos: Nas escolas, a solidariedade dos alunos e das respectivas famílias, provocou uma avalanche de donativos de ordem vária (roupas, géneros, dinheiro e outros). A estas vieram juntar-se inúmeras ofertas de particulares. Face a esta afluência, foram organizados diversos serviços que mobilizaram de um modo permanente a acção de diversos colegas: recolhas, armazenamento (selecção e acondicionamento) e distribuição. Para dar uma ideia da quantidade de roupas, calçado, géneros e mobílias recolhidas, basta assinalar que foi suficiente para mobilizar diariamente duas garagens particulares e duas camionetas afectas à recolha e distribuição. A nossa distribuição de donativos nas localidades foi directamente feita aos serviços que aí dirigiam a acção assistencial, devido à nossa impossibilidade, em parte por falta de dados concretos, de proceder a uma justa avaliação das necessidades individuais. Dinheiro. As contas falam: Serviços. Transportes de coisas e pessoas 15 047$50. Alimentação de trabalhadores   3 951$40. Vários  721$70  [Total] 19 720$60. Donativos. Em géneros comprados   54 524$40. Em dinheiro 64 000$00.  [Total] 138 245$00. Os donativos em dinheiro foram distribuídos nos seguintes locais: Carregado, Campolide, Odivelas, Ulmeira, Alhandra e Alenquer. 2. O do trabalho de campo: Foi este sector especialmente representativo de uma solidariedade, de um sentido de responsabilidade e consciência humana, mais activos e foi o que permitiu, a nós estudantes, um maior contacto com as populações atingidas. Para que este serviço tivesse a eficiência necessária organizaram-se equipas de prospecção, que diariamente dados concretos sobre os locais de trabalho e a estruturação e modo de funcionamento dos organismos de emergência, facultando assim os elementos para uma planificação. A partir desta planificação efectuaram-se os trabalhos de campo, que ocuparam uma média diária de cerca de quatrocentos estudantes (máximo mil, mínimo cem) dos diversos liceus, institutos, colégios, escolas técnicas e comerciais de Lisboa. Como, para o transporte das equipas de trabalho, só encontrámos a colaboração de alguns particulares, tivemos de alugar diariamente várias camionetas. Quanto às ferramentas (pás, picaretas, sachos, etc.) também, na sua maior parte, se deveram ao espírito de cooperação de particulares. Ainda no que diz respeito às brigadas de trabalho, faz-se notar a consciencialização que se operou na malta enviada: - do que representava a sua presença para os sinistrados; - da forma de que se devia revestir o seu comportamento, de modo a realçar que era realmente de solidariedade activa que se tratava, e não de um pretexto para fugir à rotina das aulas. E dentro deste espírito actuaram os nossos grupos de trabalho em Algés, Alcântara, Campolide, Urmeira, Odivelas, Olival Basto, Cacém, Loures, Póvoa de Santo Adrião, Bucelas, Refugidos, Cadafais, Fanhões, Alenquer, Calhandriz, Santana de Carnota, Sacavém, Quintas, Vila Franca de Xira, S. Julião do Tojal, Vila d’Aires. Procurou assegurar-se aos voluntários do trabalho de campo, a manutenção de um serviço de apoio alimentar que, deslocando-se aos locais de trabalho, distribuía pães, bananas e leite – este oferecido pela UCAL. Contactos. Para garantir o nosso trabalho foi-nos imprescindível entrar em contacto com diversas autoridades… ▪ Governamentais. Contactámos com diversos ministérios, a fim de conseguirmos facilidades na obtenção de transportes e ferramentas que deles esperávamos, o que, de facto, não aconteceu. Exceptuou-se o acordo do Ministro da Educação Nacional, quando abordado particularmente, de retirar as faltas dadas pelos alunos que trabalharam no auxílio aos sinistrados, caso devido a elas viessem a perder o ano. ▪ Liceais. A este nível, a colaboração foi maior, tendo a nossa campanha sido autorizada por todos os reitores e apoiada, de um modo especial, por alguns. ▪ Autarquias e Entidades encarregadas dos Serviços Assistenciais nas Localidades. Estas manifestaram um grande espírito de cooperação e compreensão da nossa vontade de colaborar. Efectivamente, não só louvaram o nosso trabalho, como se mostraram assaz satisfeitas por poderem contar com um acréscimo de mão-de-obra. ▪ As Populações sinistradas, de um modo geral, receberam o nosso auxílio, como de supor, de braços abertos. FECHO. Até aqui, colegas, temos vindo a expor como se processou a actuação do CCAJ. Passamos agora a tratar das razões que motivaram o seu encerramento. 1º) A consciência das necessidades de estudo e vida familiar, que foram afectadas por doze dias de trabalho intensivo, e, simultaneamente, sensível diminuição do trabalho de emergência e dos pedidos de mão-de-obra; 2º) e decisivamente, a entrada em campo da organização MP (chamando a si a recolha de donativos e a organização de brigadas de campo) e a nossa decisão de não entrarmos, de modo organizado, em colaboração ou competição com tal entidade, por isso não corresponder à vontade e consciência de grande número de estudantes. Observação. O CCAJ lamenta que a organização de auxílio de emergência montada pela MP, tenha começado tão tarde e tido duração tão escassa. NOTA FINAL. Ao terminar a sua missão, resta ao CCAJ exprimir o desejo de que a experiência e consciência ganhas nestes quinze dias de trabalho sirvam para que melhor aproveitemos a nossa disponibilidade de estudantes, na solidariedade para com as populações que vivam permanentemente em precárias condições humanas; e de que se procure dar a essa disponibilidade características de estruturação e organização que, se podem compreensivelmente faltar num trabalho de emergência, não podem deixar de existir num trabalho a longo prazo, sob pena de comprometer gravemente a sua viabilidade».
(30) Cfr. o depoimento de João Bernardo in ANDRINGA, Diana – Geração de 60, RTP, 1989, 3º episódio.
(31) Sobre o papel dos estudantes de Coimbra, cfr. CODINHA, Miguel Gonçalo Cardina – A Politização do Meio Estudantil Coimbrão durante o Marcelismo. policop: Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2005 [tb. publicado em livro: CARDINA, Miguel - A Tradição da Contestação. Resistência estudantil em Coimbra no marcelismo. Coimbra: Angelus Novus, Editora, 2008], pp. 46ss.
(32) Cfr. DUARTE, Marta – Foi Apenas um Começo. A crise académica de 1969 na história do movimento estudantil dos anos sessenta e da luta contra o Estado Novo. policop. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 1997, p. 173.
(33) Cfr. o depoimento de Conceição Monteiro in AA.VV. – Mulheres Políticas – As suas causas. Dir. de Ana Maria Bettencourt e Maria Margarida Silva Pereira. Lisboa: Quetzal Editores, 1995, pp. 192-193. Noutro depoimento, refere que «morreram vinte e quatro vizinhos meus e a minha casa ficou destruída». Conceição Monteiro vivia na quinta da sogra, onde tinha casa, juntamente com o seu cunhado, Luís Sttau Monteiro: «na altura das cheias, a minha casa foi completamente destruída e, então, vim viver para Lisboa e continuei a militar na Acção Católica e na Conferência São Vicente de Paula, e a ajudar ainda a Cruz Vermelha. Na verdade, na época tinha várias vertentes de voluntariado, pois ainda trabalhei também em Alcoitão. De facto, não gostava de passar o dia “de papo para o ar” e, como financeiramente não precisava de trabalhar, sempre me causou horror a ideia de alguém ocupar indevidamente o emprego de alguém que precisava de trabalhar. Sempre tive essa preocupação de justiça social, uma coisa de família que vem desde a minha educação […]. Como não tinha necessidade de trabalhar, sentia que tinha uma espécie de dever para com a sociedade, devolvendo o meu tempo através do voluntariado. Já na época que vivi em Loures, apesar de ser apenas a sete quilómetros de Lisboa, conheci imensos vizinhos que nunca tinham vindo à capital, por mais incrível que isto possa parecer. E foi junto dessas pessoas mais carenciadas que viviam ali, em redor da Quinta, que eu me senti mais gratificada com aquilo que estava a fazer, ou seja, sentia-me francamente útil. Depois, quando vim para Lisboa, a vida já era um bocadinho diferente, já não era exactamente a mesma coisa. Embora tenha continuado a fazer voluntariado, dediquei-me um bocadinho mais à família e aproveitei também para fazer um curso no Patriarcado de Lisboa de Doutrina e Teologia, que me deu bases muito importantes de Sagrada Escritura, de Teologia, de Liturgia… E senti-me com muito mais fé, com outra maturidade e outra maneira até de ver algumas coisas, a vida, a própria catequese…»: cfr. AIDO, Paulo – A Confidente de Sá Carneiro. As memórias políticas e pessoais de Conceição Monteiro, secretária do mítico líder do PSD. Lisboa: Zebra Publicações, 2010, pp. 19-20.
(34) Além dos arquivos do antigo Ministério do Interior, é interessante a documentação existente in Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Arquivo da Presidência do Conselho de Ministros, PCOS/MC, PRC 14/C-17-4, UI 180.
(35) Importa reconhecer que as instituições da Previdência não deixariam de actuar, e de forma empenhada, no apoio aos sobreviventes. Assim, um extenso relatório intitulado «Actuação das Instituições de Previdência para Auxílio às vítimas das inundações de 25 Nov. 67», elaborado em Março de 1968 no âmbito do Ministério das Corporações e Previdência Social, dá conta de que, até essa data, se havia procedido ao realojamento de 1.500 pessoas: in Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, PCM/MC, NT 915.
(36) Cfr. SEABRA, Zita - Foi Assim. Lisboa: Alêtheia Editores, 2007, p. 61.
(37) Cfr. JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 1-III-1995.
(38) In ANDRINGA, Diana – Geração de 60, RTP, 1989, 3º episódio. Referiu ainda Mariano Gago: «com as cheias de 1967 e com a participação na movimentação dos estudantes de Lisboa no apoio às populações (morreram centenas de pessoas na área de Lisboa e isso era proibido dizer-se). Só as Associações de Estudantes e a Juventude Universitária Católica é que estavam no terreno a ajudar as pessoas a tirar a lama, a salvar-lhes os pertences, juntamente com alguns raros corpos de bombeiros e militares. Talvez isso, tenha sido um dos primeiros momentos de mobilização política da minha geração»:
In http://w3.ualg.pt/~jdias/GEOLAMB/GAn_Casos/Lisboa1967/GA35sup1967_CheiasLisboa.html
(39) Cfr. HENRIQUE, Teresa e RAMALHO, Miguel Nunes – As Eleições de 1958. Humberto Delgado na Campanha do Norte (Chaves, Vila Real, Lamego, Castro Daire e Viseu). Lisboa: Prefácio, 2008, p. 20.
(40) Cfr. THOMAZ, Américo – Últimas décadas de Portugal. Vol. 3. Lisboa: Fernando Pereira-Editor, s.d., p. 257.
(41) In ANDRINGA, Diana – Geração de 60, RTP, 1989, 3º episódio.
(42) Cfr. WEMANS, Jorge – Os «miúdos» nas cheias. Pública, de 23-XI-1997, p. 56.
(43) Cfr. Pública, de 23-XI-1997, p. 41.
(44) Cfr. Pública, de 23-XI-1997, p. 47.
(45) Cfr. Pública, de 23-XI-1997, p. 48.
(46) Cfr. ALVIM, Pedro - Os mortos e os fósforos. In AA.VV. - O Homem na Cidade. Crónicas. Lisboa: Prelo Editora, 1968, pp. 3-5.
(47) Cfr. MELO, António – Cheias. A censura não aguentou. Pública, de 23-XI-1997, pp. 50ss.
(48) Cfr. Solidariedade Estudantil, nº 2, editado pelo SCIP - Secretariado Coordenador de Informação e Propaganda, in Biblioteca-Museu República e Resistência, BMRR/Grandella, Pasta Movimento Estudantil. Jornais e boletins - 1965/1974.
(49) Cfr. PRÍNCIPE, César – Os Segredos da Censura. 3ª ed. Lisboa: Editorial Caminho, 1994, pp. 34-35. Note-se que a Censura sempre se preocupou com a divulgação de notícias reveladoras da pobreza. Assim, por exemplo, o relato de um caso de mendicidade no Rossio é severamente amputado: cfr. República, Prova de Censura de 8-VIII-1967, in CALDEIRA, Alfredo (coord.) – República Censurada. Lisboa: Fundação Mário Soares, 2003 [CD-ROM].
(50) A 19 de Dezembro de 1967, o Ministro do Interior agradecerá, através de um diplomata cuja identidade não foi possível determinar, o apoio dado por Dom Duarte Nuno. É o seguinte o teor dessa missiva: «Tendo recebido a carta de V.Exa. de 12 do corrente, em que, em nome do Senhor Dom Duarte e no de V.Exa., apresentava ao Ministro do Interior e ao Governo profundo pesar pela calamidade que assolou Lisboa e alguns dos seus concelhos vizinhos na noite de 25 para 26 do passado mês de Novembro, levando a morte e o sofrimento a tantos portugueses e produzindo danos materiais e morais incalculáveis, venho agradecer a V.Exa. e rogar-lhe transmita ao Senhor Dom Duarte os meus cumprimentos e o profundo agradecimento do Governo pelos nobres sentimentos expressos e transmitidos na carta de V.Exa. Peço ainda a V.Exa. se digne transmitir ao Senhor Dom Duarte o apreço do Governo pela oferta, tão cheia de significado moral, à Cruz Vermelha Portuguesa e a favor das vítimas das inundações, da lembrança comemorativa das Bodas de Prata do seu casamento, que há meses havia sido oferecida por uma Comissão constituída para o efeito. A entrega dessa preciosa lembrança, bem como a recolha de donativos para o mesmo fim, dão bem a medida das excelsas virtudes que ornam o espírito e o coração do Senhor Dom Duarte Nuno a quem esta provação que tão duramente afectou a vida e os haveres de muitos portugueses, deu ensejo de mostrar o seu carinho e desvelo por todos os que sofreram. Queira, Senhor Embaixador, transmitir ao Senhor Dom Duarte Nuno, além dos meus agradecimentos, os meus respeitosos cumprimentos. Aproveito a oportunidade para apresentar a V.Exa. muitos distintos cumprimentos»: in Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Arquivo da PIDE/DGS – Serviços Centrais, Processo nº 219, CI (1), UI 1177/1178, Ministério do Interior.
(51) In http://ppresente.wordpress.com/2007/11/26/as-cheias-de-1967/
(52) Cfr. DUARTE, Marta – Foi Apenas um Começo…, cit., p. 173.
(53) Cfr. DUARTE, Marta – Foi Apenas um Começo…, cit., p. 173.
(54) In ANDRINGA, Diana – Geração de 60, RTP, 1989, 3º episódio.
(55) Cfr. Solidariedade Estudantil, nº 2, editado pelo SCIP - Secretariado Coordenador de Informação e Propaganda, in Biblioteca-Museu República e Resistência, BMRR/Grandella, Pasta Movimento Estudantil. Jornais e boletins - 1965/1974.
(56) Cfr. CRISTO, Dina – A Rádio em Portugal e o Declínio do Regime de Salazar e Caetano (1958-1974). Coimbra: MinervaCoimbra, 2005, p. 23. Sobre este programa e o seu impacto, cfr. CARDINA, Miguel – O «canto de intervenção» no combate ao Estado Novo. In ppresente.wordpress.com
(57) Apud OLIVEIRA, Maria Luísa Brandão Tiago de – O Serviço Cívico…, cit., p. 166.
(58) In ANDRINGA, Diana – Geração de 60, RTP, 1989, 3º episódio.
(59) «[…] o marxismo de Mao-Tsé-Tung na China é uma ideologia, ou seja, revela-se também uma prática posta em acção»: cfr. OELGART, Bernd – Ideólogos e Ideologias da Nova Esquerda. Trad. portuguesa. Lisboa: Editorial Presença, s.d., p. 17.
(60) Cfr. PEREIRA, José Pacheco – Sentimentos Misturados. Público (30-XI-2006).
(61) Cfr. CAMPOS, Ioli – O caos da gripe de 68. Sábado, de 13-VIII-2009, p. 90.
(62) Depoimentos no programa televisivo Depois do Adeus, RTP, 17-II-2008.
(63) A expressão é de MELO, Jorge Silva -  Século Passado. Lisboa: Edições Cotovia, 2007, p. 457.
(64) Cfr. Deus o que é? Cadernos O Tempo e o Modo. 3. Lisboa: s.n., s.d., pp. 64-65.
(65) Cfr. Deus o que é?..., cit., p. 67.
(66) Cfr. Deus o que é?..., cit., pp. 68-69.
(67) Cfr. SEABRA, Zita - Foi Assim, cit., p. 40, itálico acrescentado.
(68) Cfr. Deus o que é?..., cit., p. 70.
(69) Entrevista a Homero Silva Cardoso, em 16 de Abril de 2009.
(70) Cfr. Deus o que é?..., cit., pp. 118-119.
(71) O tema é desenvolvido in KÜNG, Hans – O Cristianismo. Essência e história. Trad. portuguesa. Lisboa: Círculo de Leitores, 2002, pp. 704ss.
(72) Cfr. Deus o que é?..., cit., p. 128.
(73) A expressão é de PIMENTEL, Irene Flunser – Os estudantes na mira do Estado Novo. In MADEIRA, João, PIMENTEL, Irene Flunser e FARINHA, Luís – Vítimas de Salazar. Estado Novo e violência política. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2007, p. 317, que acrescenta: «a estrutura estudantil do PCP desabou», tendo-se iniciado uma imensa vaga de prisões em Janeiro de 1965 (numa só noite, são presos cinquenta jovens militantes comunistas). Cfr. ainda PIMENTEL, Irene Flunser - A Polícia Internacional..., cit., pp. 638ss. Cfr. o depoimento de Diana Andringa in MEDINA, Miguel – Esboços. Antifascistas relatam as suas experiências nas prisões do fascismo. 2 Vols. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1999 p. 69, que refere, entre outras, as prisões de Aguinaldo Cabral, Filipe e Fernando Rosas, e dos estudantes liceais Manuela Louro e Joaquim Vital.
(74) Cfr. MELO, Jorge Silva - Século..., cit., pp. 456-457.